Econômico

18 Economia Circular e Reciclagem Avançada em Portugal em 2026

O ano de 2026 marca um ponto de viragem decisivo para a sustentabilidade em Portugal. Se até agora ouvimos falar de reciclagem como um dever cívico, em 2026 ela transforma-se num motor económico e tecnológico. Com a entrada em vigor de novos sistemas de depósito e o avanço de tecnologias de reciclagem química, o país prepara-se para deixar para trás o velho modelo de “extrair, usar e deitar fora”.

Neste artigo, vamos explorar como a Economia Circular em Portugal em 2026 está a redefinir indústrias, desde o tão aguardado Sistema de Depósito e Reembolso (SDR) até às inovações em Sines e no Norte do país. Vamos mergulhar no que muda para si, para as empresas e para o ambiente.

O Grande Marco de 2026: O Sistema de Depósito e Reembolso (SDR)

Talvez a mudança mais visível para o consumidor comum em 2026 seja o início do funcionamento pleno do Sistema de Depósito e Reembolso (SDR) para embalagens de bebidas. Após vários adiamentos, abril de 2026 é a data chave apontada para que este sistema entre nas rotinas dos portugueses.

Como Funciona o SDR?

A ideia é simples mas poderosa: ao comprar uma bebida (água, sumo, refrigerante) em plástico ou metal, o consumidor paga um valor extra (o depósito). Esse valor é integralmente devolvido quando a embalagem vazia é entregue num ponto de recolha autorizado.

O que muda na prática:

  • Máquinas de Recolha: Supermercados e grandes superfícies passam a ter máquinas automáticas de venda inversa.
  • Qualidade do Material: Ao contrário do ecoponto amarelo, onde os materiais se misturam e sujam, o SDR garante um material limpo e de alta qualidade, pronto para ser transformado em novas garrafas (“bottle-to-bottle”).
Característica Ecoponto Tradicional (Amarelo) Novo Sistema SDR (2026)
Pureza do Material Média/Baixa (mistura de contaminantes) Alta (material separado na origem)
Incentivo Cívico (sem retorno financeiro) Financeiro (reembolso do depósito)
Destino Principal Downcycling (produtos de menor valor) Reciclagem “Bottle-to-Bottle”

Esta medida é crucial para que Portugal tente aproximar-se das metas europeias, que exigem taxas de recolha superiores a 70% e 90% nos próximos anos, algo que o sistema antigo dificilmente conseguiria atingir sozinho.

Reciclagem Avançada: A Revolução Silenciosa

Enquanto o SDR muda o nosso dia a dia, nos bastidores da indústria ocorre uma revolução tecnológica: a reciclagem avançada. Mas o que significa isto exatamente?

Até hoje, dependemos muito da reciclagem mecânica (lavar e triturar plástico). O problema é que o plástico perde qualidade a cada ciclo. A reciclagem avançada, incluindo a reciclagem química, resolve isto ao “partir” os plásticos ao nível molecular, transformando-os novamente em óleo ou gás original. Isto permite criar plástico virgem infinitamente, mesmo a partir de resíduos que antes iam para aterro.

Projetos de Destaque em Portugal

Em 2026, vários projetos e empresas portuguesas estão na vanguarda desta tecnologia:

  1. Ecoibéria e o “Bottle-to-Bottle”:
    Localizada no norte de Portugal, a Ecoibéria tem liderado o caminho com tecnologias de triagem a laser de última geração. O seu foco é garantir que uma garrafa de PET usada possa voltar a ser uma garrafa alimentar, e não apenas um tapete ou fibra têxtil. Em 2026, a exigência por este PET de alta qualidade (rPET) dispara devido às novas regulações da UE que obrigam a incorporar percentagens mínimas de reciclado nas novas embalagens.
  2. Inovação em Sines (Galp e Repsol):
    A zona industrial de Sines está a transformar-se num “hub” de economia circular e descarbonização. Projetos colaborativos e desafios de inovação lançados por gigantes energéticos como a Galp e a Repsol visam explorar a captura de carbono e a produção de combustíveis sintéticos. Embora o foco inicial seja a energia, estas tecnologias cruzam-se com a reciclagem química, permitindo tratar resíduos complexos que a reciclagem mecânica não resolve.
  3. Química Verde da EcoX:
    Outro exemplo fascinante é a EcoX, que utiliza princípios de “Química Verde” para transformar óleos alimentares usados em detergentes e produtos de limpeza ecológicos. Este é um exemplo perfeito de economia circular: um resíduo poluente de uma indústria (alimentar) torna-se matéria-prima para outra.

Legislação e Metas: O Relógio Está a Contar

O ano de 2026 não é apenas sobre tecnologia; é sobre cumprir a lei. Portugal enfrenta uma pressão enorme de Bruxelas para cumprir diretivas ambientais rigorosas. O país tem estado em risco de incumprimento em várias metas de reciclagem, o que torna a legislação de 2026 ainda mais crítica.

Principais Marcos Legislativos para 2026

  • Direito à Reparação (Julho 2026):
    Portugal tem até ao verão de 2026 para transpor a diretiva europeia do “Direito à Reparação”. Isto obrigará os fabricantes de eletrodomésticos e eletrónica a disponibilizar peças e manuais aos consumidores e oficinas independentes, combatendo a obsolescência programada.
  • Lei da Economia Circular:
    Espera-se que a estrutura legislativa se consolide com uma Lei de Bases ou regulamentos específicos que penalizem o desperdício e incentivem o design circular (produtos feitos para durar e serem desmontados).
Prazo Ação / Meta Impacto Esperado
Abril 2026 Lançamento previsto do SDR Aumento drástico na recolha de PET e latas.
Julho 2026 Diretiva “Direito à Reparação” Maior vida útil para telemóveis e eletrodomésticos.
Dezembro 2026 Avaliação de Metas de Resíduos Possíveis multas da UE se as taxas de reciclagem não subirem.

O Papel dos Fundos: Portugal 2030

A transição para uma economia circular exige capital. Felizmente, o quadro comunitário Portugal 2030 tem verbas especificamente alocadas para esta transição.

Os programas regionais, como o Norte 2030 e o Centro 2030, lançaram avisos para apoiar a “Sustentabilidade e Uso Eficiente de Recursos”. Em 2026, muitas das empresas que se candidataram a estes fundos começarão a implementar as suas novas linhas de produção mais limpas.

Oportunidades para Empresas:

  • Apoios à descarbonização da indústria.
  • Incentivos para a compra de frotas de emissões nulas.
  • Financiamento para I&D (Investigação e Desenvolvimento) em novos materiais biodegradáveis ou recicláveis.

Desafios: A Realidade dos Aterros

Apesar do otimismo tecnológico, não podemos ignorar a realidade. Portugal ainda deposita uma quantidade alarmante de resíduos em aterro. Organizações não-governamentais como a ZERO têm alertado repetidamente que, sem uma fiscalização rigorosa e uma taxa de gestão de resíduos (TGR) que penalize verdadeiramente o aterro, as tecnologias avançadas não serão suficientes.

Em 2026, a “guerra” será contra os biorresíduos (restos de comida) misturados no lixo comum. A recolha seletiva de orgânicos, que se tornou obrigatória, precisa de atingir uma adesão massiva da população para retirar este “peso” dos aterros e permitir a produção de composto e biogás de qualidade.

Palavras Finais

A Economia Circular em Portugal em 2026 está a deixar de ser um conceito de “marketing” para se tornar uma necessidade industrial e legal. A chegada do Sistema de Depósito e Reembolso trará a reciclagem para a carteira e consciência de cada português de uma forma nunca antes vista. Simultaneamente, a reciclagem avançada promete resolver o problema dos plásticos difíceis, transformando lixo em recursos valiosos.

O caminho é longo e as metas europeias são ambiciosas, mas com a combinação certa de inovação tecnológica (como a da Ecoibéria e Galp), pressão legislativa e fundos do Portugal 2030, o país tem as ferramentas para dar o salto. Para si, consumidor ou empresário, a mensagem é clara: o futuro não é descartável, é renovável.