A França recebe o novo primeiro-ministro com protestos de ‘bloquear tudo’
A França viveu um dia agitado na quarta-feira, com a posse de um novo primeiro-ministro sendo ofuscada por protestos em massa em todo o país. Cerca de 175 mil manifestantes participaram das ações conhecidas como “bloqueio total”, que incluíram interrupções em estradas, estações de trem e até fogueiras acesas nas ruas, tudo para demonstrar oposição aos cortes orçamentários propostos pelo governo.
Esses protestos destacam uma insatisfação crescente com as políticas econômicas, e autoridades relataram impactos significativos no dia a dia dos franceses. De acordo com o Ministério do Interior, as manifestações resultaram em pelo menos 473 prisões, com a polícia mobilizando forças consideráveis para manter a ordem.
Detalhes dos Protestos e Seus Impactos Imediatos
Os protestos começaram cedo pela manhã e se espalharam por diversas regiões, ganhando força através das redes sociais, onde hashtags como #BlocageTotal viralizaram. Grupos políticos variados, incluindo sindicatos, ativistas de esquerda e até alguns apoiadores de partidos de oposição, se uniram para expressar frustração com as medidas de austeridade do governo centrista liderado por Emmanuel Macron.
A polícia nacional francesa destacou que 80 mil agentes foram acionados para lidar com as manifestações, um número que reflete a preocupação com possíveis escaladas de violência. O Ministério do Interior registrou 262 incêndios em vias públicas, muitos deles iniciados com barricadas improvisadas feitas de pneus e lixo. Em Paris, manifestantes bloquearam avenidas importantes como a Champs-Élysées e acessos ao Arco do Triunfo, causando atrasos no tráfego e no metrô, conforme reportado pela BBC em sua cobertura ao vivo.
Fora da capital, as ações foram igualmente intensas. Em Marselha, no sul do país, milhares de pessoas se reuniram no Vieux-Port, onde discursos criticaram o aumento do custo de vida e a falta de investimentos em serviços públicos. Lyon viu protestos concentrados na Place Bellecour, com relatos de confrontos leves envolvendo gás lacrimogêneo, segundo o jornal Le Figaro. Cidades como Bordeaux, Toulouse e Nantes também registraram bloqueios em rodovias e estações ferroviárias, afetando o transporte de mercadorias e passageiros. A Reuters informou que trens de alta velocidade, como o TGV, sofreram atrasos de até duas horas em rotas chave.
Essas interrupções não paralisaram completamente o país, mas geraram prejuízos econômicos estimados em milhões de euros, incluindo perdas para o setor de transportes e comércio local. Analistas da Bloomberg destacam que tais protestos podem agravar a já frágil recuperação econômica da França pós-pandemia, com impactos em cadeias de suprimentos e turismo.
Os manifestantes expressaram um “descontentamento generalizado” com questões como desemprego, inflação e cortes em áreas como saúde e educação. Fontes como o The Guardian notaram que muitos participantes compararam a situação atual à crise dos “coletes amarelos” de 2018-2019, que começou com protestos contra impostos sobre combustíveis e evoluiu para uma crítica ampla ao governo Macron, resultando em mais de 10 mil prisões e danos estimados em 2,5 bilhões de euros, de acordo com relatórios oficiais do governo francês.
A Nomeação de Sébastien Lecornu e o Contexto Político
Os protestos ocorreram no exato dia da posse de Sébastien Lecornu como primeiro-ministro, o quinto em menos de dois anos, sinalizando a instabilidade crônica no governo francês. Lecornu, de 38 anos, é um aliado próximo de Macron, tendo ocupado cargos anteriores como ministro das Forças Armadas (2020-2022) e ministro da Agricultura (2022-2024), onde lidou com questões como a crise alimentar global e reformas agrícolas. Sua escolha, anunciada pelo Palácio do Eliseu, foi vista por críticos como uma continuação das políticas centristas de Macron, sem rupturas significativas.
A cerimônia de posse aconteceu no Hôtel Matignon, em Paris, à tarde, enquanto as manifestações ferviam nas ruas. Lecornu manteve seu discurso breve, reconhecendo a “instabilidade e crise atual” que exige “humildade e solenidade”. Ele destacou a “lacuna entre a vida real e a vida política”, prometendo uma “mudança substancial, não apenas em forma e método”. Em tom otimista, afirmou que “nada é impossível” e sugeriu que o governo precisa ser “mais criativo e técnico” para enfrentar desafios como o déficit orçamentário, que, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (INSEE), atingiu 5,5% do PIB em 2024, impulsionado por gastos com subsídios energéticos e apoio social durante a inflação causada pela guerra na Ucrânia.
O antecessor de Lecornu, François Bayrou, renunciou na terça-feira após uma moção de censura aprovada pelo Parlamento, que deixou o governo sem maioria. Essa turbulência remonta à dissolução da Assembleia Nacional por Macron em junho de 2024, seguida de eleições legislativas que resultaram em um Parlamento fragmentado a coalizão de Macron obteve cerca de 245 assentos, enquanto a esquerda (Nova Frente Popular) conquistou 182 e a extrema-direita (Reagrupamento Nacional) 143, conforme resultados oficiais da Assembleia Nacional. Sem maioria absoluta, o governo depende de alianças instáveis para aprovar leis, especialmente o orçamento de 2026, que prevê cortes de até 60 bilhões de euros em gastos públicos, de acordo com projeções da Comissão Europeia.
Raízes Econômicas e Sociais da Crise
A discordância política está enraizada nas tentativas de Macron de equilibrar as finanças públicas, com propostas de cortes que afetam pensões, benefícios sociais e investimentos em infraestrutura. A OCDE, em seu relatório econômico de 2025, alerta que a dívida pública francesa ultrapassa 110% do PIB, uma das mais altas da zona do euro, agravada pela recessão global e custos com transição energética. Manifestantes argumentam que essas medidas aumentam a desigualdade, com o desemprego jovem atingindo 18% em regiões como o norte da França, segundo o Eurostat.
Críticos, incluindo líderes sindicais como a CGT (Confederação Geral do Trabalho), veem Lecornu como uma extensão de Macron, cuja popularidade caiu para 30% em pesquisas recentes do IFOP. O jornal Le Monde analisou que a escolha reflete a estratégia de Macron de nomear aliados leais para navegar pela crise, mas isso pode intensificar a polarização, com opositores como Jean-Luc Mélenchon pedindo mais protestos.
Perspectivas Futuras e Possíveis Desenvolvimentos
Olhando para o futuro, Lecornu enfrenta o desafio de formar um governo funcional em meio à fragmentação parlamentar. Ele prometeu diálogo com opositores para aprovar reformas, mas analistas da France 24 sugerem que novas moções de censura são prováveis se os cortes orçamentários não forem amenizados. O governo planeja negociações com partidos moderados para o orçamento, mas sindicatos já anunciaram greves adicionais nos setores de transporte e educação para as próximas semanas.
Os protestos atuais podem evoluir para um movimento sustentado, similar aos “coletes amarelos”, que forçaram concessões como a suspensão de impostos e aumentos no salário mínimo. Autoridades estão monitorando as redes sociais para prevenir violência, com o Ministério do Interior reforçando a presença policial em áreas sensíveis. Enquanto isso, a economia francesa, a segunda maior da Europa, corre o risco de desaceleração se as perturbações continuarem, com previsões do FMI indicando crescimento de apenas 1,3% em 2025 se a instabilidade persistir.
Em resumo, a posse de Lecornu marca um novo capítulo na crise política francesa, mas os protestos destacam demandas profundas por mudanças econômicas e sociais que o governo precisará abordar para restaurar a estabilidade.
