Assembleia Geral da ONU vota por um estado palestino livre do Hamas
A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma declaração histórica que defende a criação de um Estado palestino independente e soberano, mas com a condição explícita de excluir o Hamas de qualquer papel de liderança, exigindo que o grupo militante libere todos os reféns e entregue suas armas à Autoridade Palestina. Essa votação, realizada em Nova York, marcou um momento significativo no debate global sobre o conflito israelense-palestino, com 142 votos a favor, 10 contra – incluindo Israel, Estados Unidos, Argentina, Hungria, República Tcheca, Fiji, Micronésia, Nauru, Palau, Papua Nova Guiné e Paraguai – e 12 abstenções, como as da Austrália, Canadá e Alemanha, destacando divisões internacionais profundas.
O texto aprovado condena de forma inequívoca o Hamas e seus ações, algo que Israel tem cobrado há quase dois anos desde os ataques de 7 de outubro de 2023, que resultaram em cerca de 1.200 mortes e mais de 250 reféns em território israelense, conforme relatórios da ONU e da Human Rights Watch. Apresentada conjuntamente pela França e pela Arábia Saudita, a declaração não deixa ambiguidades: ela exige que “o Hamas liberte todos os reféns” e condena “os ataques cometidos pelo Hamas contra civis em 7 de outubro”. Além disso, o documento apela para uma “ação coletiva imediata para encerrar a guerra em Gaza, promover a implementação efetiva da solução de dois Estados e alcançar uma resolução justa, pacífica e duradoura para o conflito israelense-palestino”.
Formalmente intitulada Declaração de Nova York sobre a Solução Pacífica da Questão da Palestina e a Implementação da Solução de Dois Estados, essa iniciativa já contava com o endosso da Liga Árabe e foi coassinada em julho de 2025 por 17 Estados-membros da ONU, incluindo nações árabes como Egito, Jordânia, Emirados Árabes Unidos e Marrocos, além de países europeus e africanos. De acordo com fontes da Reuters e da BBC, o foco principal é isolar o Hamas politicamente e militarmente, promovendo uma transição pacífica. “No contexto de pôr fim à guerra em Gaza, o Hamas deve encerrar seu domínio sobre Gaza e entregar suas armas à Autoridade Palestina, com o envolvimento e apoio internacional, alinhado ao objetivo de estabelecer um Estado palestino soberano e independente”, afirma o texto, que também menciona a possibilidade de monitoramento internacional para garantir o cumprimento.
O vice-presidente palestino, Hussein al-Sheikh, que representa a Autoridade Palestina controlada pelo Fatah, celebrou a aprovação em uma declaração oficial, destacando que a resolução “reflete a determinação internacional em apoiar os direitos legítimos do povo palestino, marcando um avanço crucial para terminar a ocupação israelense e realizar o sonho de um Estado independente com Jerusalém Oriental como capital”. Essa visão alinha-se com a posição histórica dos palestinos, que buscam o reconhecimento baseado nas fronteiras de 1967, conforme resoluções da ONU como a 242 de 1967 e a 338 de 1973. Por outro lado, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Oren Marmorstein, reagiu com veemência em uma postagem na rede social X (antigo Twitter), declarando que Israel “rejeita integralmente essa declaração absurda”, rotulando a Assembleia Geral como “um circo político completamente desconectado da realidade no terreno, ignorando as ameaças existenciais enfrentadas por Israel”.
‘Escudo’ contra Críticas e Pressão Diplomática
Essa votação ocorre às vésperas de uma cúpula especial da ONU, copresidida pela Arábia Saudita e pela França, agendada para 22 de setembro de 2025 em Nova York, onde o presidente francês Emmanuel Macron anunciou que formalizará o reconhecimento do Estado palestino pela França, juntando-se a mais de 140 nações que já o fizeram desde a proclamação palestina em 1988. “O fato de a Assembleia Geral endossar um texto que condena diretamente o Hamas é um marco importante”, analisou Richard Gowan, diretor de assuntos da ONU no International Crisis Group, em entrevista à agência de notícias AFP. Ele observou que, embora israelenses possam argumentar que isso chega “pouco e tarde demais”, a declaração permite que apoiadores dos palestinos “rebatam acusações de que toleram implicitamente o Hamas”, funcionando como um “escudo contra críticas israelenses”.
Outros líderes, incluindo os da Espanha, Irlanda, Noruega e possivelmente da Arábia Saudita, sinalizaram intenções semelhantes de reconhecimento durante a cúpula, conforme reportado pelo The New York Times e pela Al Jazeera. Esses movimentos diplomáticos são interpretados como estratégias para intensificar a pressão sobre Israel para cessar as hostilidades em Gaza, que, segundo dados do Ministério da Saúde de Gaza e verificados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), já resultaram em mais de 41.000 mortes palestinas, incluindo milhares de crianças, e uma crise humanitária com fome generalizada e destruição de infraestrutura. O conflito foi iniciado pelos ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, mas escalou com a resposta militar israelense, que inclui bombardeios intensos e bloqueios, levantando preocupações sobre possíveis violações do direito internacional humanitário, como apontado em relatórios da Anistia Internacional.
A Declaração de Nova York vai além, propondo o “desdobramento de uma missão internacional temporária de estabilização” em Gaza, sob mandato do Conselho de Segurança da ONU, para auxiliar na reconstrução e no apoio à população civil, incluindo a entrega de ajuda humanitária e o monitoramento de cessar-fogos. Essa ideia ecoa propostas anteriores, como as discutidas em negociações mediadas pelo Catar e Egito, e visa preencher o vácuo de poder pós-Hamas, fortalecendo a Autoridade Palestina liderada por Mahmoud Abbas.
Atualmente, cerca de três quartos dos 193 Estados-membros da ONU – aproximadamente 146 países – reconhecem o Estado palestino, incluindo nações como Brasil, China, Índia e a maioria dos países árabes e africanos, de acordo com o Pew Research Center. No entanto, os últimos dois anos de guerra devastaram Gaza, com mais de 90% de suas escolas danificadas ou destruídas, conforme a UNESCO, além da expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia, que agora abrigam mais de 700.000 colonos israelenses em territórios considerados ocupados pela lei internacional. Autoridades israelenses, incluindo membros do governo de coalizão de extrema-direita, expressaram abertamente o desejo de anexar partes da Cisjordânia, o que tem alimentado temores de que a viabilidade de um Estado palestino contíguo se torne impossível.
“Nós vamos cumprir nossa promessa de que não haverá Estado palestino”, declarou o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu em um discurso na quinta-feira, 11 de setembro de 2025, reiterando sua oposição à solução de dois Estados e defendendo a segurança de Israel contra ameaças como o Hamas e o Hezbollah, conforme coberto pela CNN e pela Associated Press. Em contrapartida, o presidente palestino Mahmoud Abbas enfrenta obstáculos para participar da cúpula da ONU, pois autoridades dos Estados Unidos indicaram que negarão seu visto, possivelmente devido a preocupações de segurança ou pressões políticas, como reportado pela Associated Press. Essa restrição destaca as tensões entre os EUA, aliados próximos de Israel, e a liderança palestina.
Para contextualizar melhor, é essencial notar que a solução de dois Estados tem raízes nos Acordos de Oslo de 1993, que visavam negociações diretas entre israelenses e palestinos, mas foram minados por violência recorrente, expansão de assentamentos e falhas em implementações. Relatórios do Banco Mundial indicam que a economia palestina em Gaza e na Cisjordânia sofreu um colapso de mais de 20% desde o início da guerra, com desemprego ultrapassando 50% em algumas áreas. Iniciativas como essa declaração da ONU buscam reviver o processo de paz, incorporando elementos de resoluções passadas e promovendo o envolvimento de atores regionais, como a Arábia Saudita, que condiciona normalizações com Israel a avanços palestinos.
Especialistas, como os do Council on Foreign Relations, argumentam que excluir o Hamas é crucial para qualquer transição viável, mas alertam para os desafios de implementação, incluindo a fragmentação interna palestina entre Fatah e Hamas desde 2007. A declaração também menciona a necessidade de “garantias de segurança” para ambos os lados, potencialmente envolvendo forças de paz internacionais, similar ao que foi proposto em planos como o de Annapolis em 2007. No geral, essa votação reforça o consenso global pela paz, mas enfrenta resistência de Israel, que prioriza sua defesa contra ameaças extremistas, enquanto os palestinos veem nisso uma oportunidade para avançar sua soberania.
