Conflito mortal irrompe entre o Hamas e um clã palestino em Gaza
Em Khan Younis, uma das cidades mais populosas do sul de Gaza, eclodiu um dos confrontos internos mais violentos e prolongados desde o início da guerra em outubro de 2023, envolvendo forças de segurança do Hamas e homens armados do clã al-Mujaida. Essa família é uma das maiores e mais influentes na região sul de Gaza, com raízes profundas na sociedade palestina local, onde laços tribais e familiares desempenham um papel crucial na organização social e na resolução de disputas. O incidente não só expõe as fissuras internas no território, mas também reflete o caos crescente em uma área já devastada por bombardeios, bloqueios e deslocamentos forçados que afetam mais de 1,9 milhão de residentes, segundo estimativas da ONU.
O Início do Confronto em Khan Younis: Uma Invasão Armada e Resposta Imediata
De acordo com comunicados oficiais do Hamas, as forças de segurança do grupo realizaram uma operação de rotina no bairro al-Mujaida para deter indivíduos suspeitos de colaboração com Israel, uma acusação grave em um contexto de conflito prolongado onde tais denúncias podem levar a execuções sumárias ou prisões indefinidas. Essa justificativa oficial busca retratar a ação como uma medida de segurança interna, alinhada com o papel do Hamas como autoridade de fato em Gaza desde 2007, quando assumiu o controle total após eleições e confrontos com o Fatah.
Relatos de testemunhas locais, no entanto, pintam um quadro bem mais caótico e agressivo. Aproximadamente 50 homens armados, transportados em cinco picapes velozes e adaptadas para terrenos irregulares – veículos comuns em zonas de conflito para mobilidade rápida –, equipados com fuzis de assalto como AK-47 e um lançador de granadas propelidas por foguete (RPG), lançaram um ataque surpresa contra o bairro al-Mujaida. Essa incursão resultou na morte imediata de cinco membros da família, incluindo possivelmente civis desarmados, o que imediatamente inflamou as tensões. O clã al-Mujaida, conhecido por sua presença forte em atividades comerciais e de autodefesa na região, mobilizou parentes armados que retaliaram com igual ferocidade, transformando as ruas estreitas e densamente povoadas de Khan Younis em um campo de batalha urbano.
O tiroteio que se seguiu durou várias horas, com rajadas contínuas de fogo pesado ecoando pela cidade, forçando moradores a se abrigarem em casas já danificadas por ataques aéreos anteriores. Khan Younis, que já foi um centro comercial vibrante com mercados e mesquitas históricas, agora é um epicentro de sofrimento, com mais de 90% de sua infraestrutura destruída ou danificada, conforme relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS). A proliferação de armas em Gaza, estimada em centenas de milhares de peças leves e pesadas desde o início do conflito atual, agrava esses episódios, criando um ambiente onde disputas locais podem escalar rapidamente para violência letal. Redes sociais, plataformas como Telegram e Facebook que são amplamente usadas pelos palestinos apesar das restrições de internet, inundaram-se com relatos não verificados independentemente, alegando que mais de 11 membros do Hamas foram abatidos durante o confronto, com imagens chocantes de corpos sendo arrastados pelas ruas em atos de humilhação pública – uma tática que remete a práticas tribais antigas de vingança.
Vídeos circulando online, que ainda aguardam verificação rigorosa por jornalistas independentes como os da BBC ou da Al Jazeera, capturam cenas perturbadoras: corpos ensanguentados vestindo uniformes militares verde-oliva característicos do Hamas, acompanhados de uma narração em árabe que os identifica como pertencentes à “Unidade Sahm”, uma força de elite de segurança interna do grupo responsável por repressão a dissidentes. Outro clipe, filmado de um telhado próximo, mostra explosões de RPG atingindo a fachada de um prédio residencial de concreto, lançando detritos e fumaça no ar, enquanto balas traçantes iluminam o céu noturno. Esses materiais visuais, embora inconclusivos sem autenticação forense, ilustram a intensidade do embate e o risco iminente para civis próximos, muitos dos quais já fugiram para campos de tendas improvisadas no sul de Gaza.
Mediação e Tentativa de Contenção: O Papel dos Elders Locais
Após horas de violência ininterrupta, elders ou líderes comunitários do clã al-Mujaida e de outras famílias aliadas intervieram para mediar o conflito, uma prática ancestral enraizada na cultura palestina onde conselhos de sábios resolvem disputas para evitar ciclos intermináveis de sangue. Essa mediação culminou na troca de corpos entre as partes, um gesto simbólico de trégua que visa restaurar alguma dignidade e conter a escalada, permitindo que famílias realizem enterros conforme as tradições islâmicas.
No entanto, essa resolução frágil não apaga o trauma. O incidente em Khan Younis elevou drasticamente o nível de ansiedade entre os palestinos, que já lidam com a escassez crônica de alimentos, água potável e cuidados médicos em um bloqueio que dura quase duas décadas. Muitos residentes expressam temor de que a combinação letal de armas difundidas – legadas de conflitos passados e contrabando via túneis com o Egito –, rivalidades entre clãs poderosos como o al-Mujaida e o controle autoritário do Hamas possa precipitar um colapso total, semelhante a uma guerra civil em um território já fragmentado por deslocamentos em massa. A destruição causada pela guerra atual, com mais de 40 mil mortes reportadas pelo Ministério da Saúde de Gaza (controlado pelo Hamas, mas corroborado por agências da ONU), e o medo de maior anarquia, onde gangues ou facções rivais poderiam disputar recursos escassos, pintam um quadro sombrio. Organizações humanitárias como a Cruz Vermelha Internacional destacam que esses confrontos internos desviam atenção e recursos de esforços de alívio, prolongando o sofrimento da população civil.
Contexto Político e o Plano de Cessar-Fogo de Trump: Medos de Retaliação e Desarmamento
Esse confronto não é um evento isolado, mas parte de um tecido mais amplo de tensões internas que o Hamas enfrenta após 17 anos de domínio incontestado em Gaza. O grupo, fundado em 1987 como um braço da Irmandade Muçulmana, tem uma história de repressão a opositores políticos e clãs rivais, incluindo prisões arbitrárias e execuções que geraram ressentimentos profundos. A raiva acumulada desses muitos antagonistas, humilhados por políticas de controle estrito, é um fator chave na recusa do Hamas ao plano de cessar-fogo proposto pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que busca encerrar o conflito com concessões mútuas.
Além da magnitude dessa hostilidade interna, o que realmente impulsiona a rejeição é o pavor de retaliação violenta e impiedosa. O plano de Trump exige o desarmamento completo do Hamas, o que deixaria seus líderes e combatentes vulneráveis a assassinatos nas ruas por clãs vingativos ou facções como o Fatah, que controla a Autoridade Palestina na Cisjordânia. O chefe da ala militar do Hamas em Gaza, possivelmente referindo-se a figuras como Mohammed Deif ou Yahya Sinwar, sinalizou explicitamente sua discordância com a proposta, conforme fontes confiáveis da BBC. Trump, em um anúncio feito na terça-feira, estabeleceu um prazo apertado: até as 18:00 EDT (22:00 GMT) de domingo para aceitação, sob ameaça de “todo o inferno” – uma retórica inflamada que evoca escaladas militares potenciais, incluindo apoio a operações israelenses mais agressivas.
Essa dinâmica reflete as complexidades geopolíticas do conflito, onde o Hamas navega entre pressões de Israel, sanções ocidentais e a necessidade de manter apoio popular em Gaza, apesar de críticas por sua governança opaca. Relatórios de entidades respeitadas como a Anistia Internacional e o Human Rights Watch enfatizam que qualquer resolução viável deve priorizar a accountability por violações de direitos humanos de todos os lados, a proteção de civis e o fim da violência cíclica. Em um território superpovoado com mais de 2 milhões de habitantes vivendo em condições precárias – com taxas de desemprego acima de 50% e dependência de ajuda internacional –, incidentes como o de Khan Younis servem como um alerta urgente sobre as fragilidades sociais que a guerra não só exacerba, mas também perpetua, demandando intervenções diplomáticas urgentes para restaurar a estabilidade.
As informações são coletadas do MSN e da BBC.
