A Nasa revela plano para astronautas viverem na lua – dentro de bolhas de vidro feitas de poeira lunar
A NASA, agência espacial americana, anunciou recentemente um projeto ambicioso para permitir que astronautas vivam na Lua em habitats esféricos de vidro, construídos diretamente a partir do solo lunar, conhecido como regolith. Essa iniciativa, financiada pelo programa NASA Innovative Advanced Concepts (NIAC), busca criar estruturas monolíticas e autossustentáveis, utilizando recursos locais para reduzir drasticamente os custos de transporte de materiais da Terra, que podem chegar a bilhões de dólares por quilo enviado ao espaço. O conceito, proposto pela empresa Skyeports LLC, de Sacramento, na Califórnia, já recebeu um financiamento inicial de US$ 175.000 em janeiro de 2025, marcando o início de estudos detalhados para viabilizar essas “bolhas de vidro lunar” em missões futuras.
A Skyeports, fundada em 2021 por uma equipe multidisciplinar de arquitetos e engenheiros espaciais, especializa-se em arquitetura para habitats extraterrestres, priorizando o uso de materiais in situ para minimizar a dependência de suprimentos terrestres. O projeto, batizado de Lunar Glass Structure (LUNGS), representa uma ruptura com métodos tradicionais de construção espacial, como módulos pré-fabricados, impressão 3D ou estruturas infláveis, que são laboriosos e demorados em ambientes de baixa gravidade. Em vez disso, a ideia explora a abundância de sílica – componente principal do vidro – no regolith lunar, que compõe cerca de 50% a 60% do solo da Lua, permitindo a produção local de habitats resistentes e transparentes.
O Processo de Construção: Da Poeira Lunar à Estrutura Esférica
O processo de criação dessas bolhas começa com a coleta de amostras de regolith na superfície lunar, logo após a chegada das missões tripuladas. Esse solo fino e poeirento, analisado em missões como Apollo, contém não só partículas de vidro natural (chamadas de “vidro lunar”), mas também fragmentos de rochas e minerais ricos em silicatos, que podem representar até 60% da composição. Esses materiais serão processados no local usando uma tecnologia inovadora: um forno de micro-ondas “inteligente”, semelhante aos fornos domésticos, mas otimizado para o vácuo lunar e temperaturas extremas.
O derretimento ocorre a altas temperaturas, explorando a fluidez do vidro lunar, que precisa ser estudada em detalhes quanto ao ponto de fusão, coeficiente de expansão e propriedades ópticas, conforme os objetivos da Fase I do NIAC. Uma vez fundido, o material é soprado em forma esférica usando tubos gigantes de gás, inicialmente preenchidos com argônio – um gás nobre não reativo, enviado da Terra em pequenas quantidades para compensar a ausência de atmosfera na Lua. Esse gás expande o vidro derretido, formando uma bolha que endurece rapidamente em baixa gravidade, criando uma estrutura com diâmetro potencial de 300 a 500 metros, capaz de abrigar dezenas de astronautas. A forma esférica surge naturalmente devido à física dos fluidos em microgravidade o líquido amorfo se organiza em uma esfera perfeita para minimizar a energia superficial, distribuindo a pressão de forma uniforme e garantindo estabilidade contra variações térmicas e impactos.
Para aumentar a resistência, o vidro será enriquecido com metais extraídos do regolith, como titânio, magnésio e cálcio, tornando-o mais forte que o aço convencional e menos propenso a fragilidade. Polímeros avançados serão incorporados para permitir a auto-reparação: em caso de rachaduras causadas por micrometeoritos ou “moonquakes” (tremores lunares detectados por sismômetros das missões Apollo), as moléculas se reorganizarão, curando o dano de forma autônoma. Após a formação da bolha externa, os tubos de sopro serão reutilizados como entradas pressurizadas, e o interior será equipado com mobiliário impresso em 3D usando mais regolith processado, promovendo uma construção totalmente in situ.
Benefícios Estruturais, Ambientais e Psicológicos para os Astronautas
A escolha pela esfera não é apenas estética: em um ambiente de 1/6 da gravidade terrestre, essa geometria oferece integridade estrutural superior, resistindo melhor às condições extremas da Lua, como temperaturas que variam de -173°C a 127°C e exposição à radiação cósmica. Camadas aninhadas de bolhas internas, preenchidas com regolith e argônio, atuarão como escudo contra radiação e micrometeoritos, enquanto a transparência do vidro permitirá a entrada de luz natural lunar, beneficiando a saúde mental dos residentes – um aspecto crucial, pois estudos da NASA mostram que o isolamento em habitats opacos pode causar estresse e depressão em missões longas.
Além da proteção, essas estruturas serão autossuficientes em energia painéis solares integrados à superfície gerarão eletricidade suficiente para o sistema inteiro, incluindo sistemas de suporte à vida. Para criar um ecossistema interno viável, desenhos propostos incluem múltiplas camadas térmicas – uma externa mais quente e outra interna mais fria – para promover condensação e umidade, permitindo o cultivo de vegetais, plantas e algas que produzam oxigênio e alimentos frescos. Essa abordagem hidropônica poderia sustentar uma tripulação por meses, alinhando-se às metas de sustentabilidade do programa Artemis, que visa estabelecer uma presença humana permanente na Lua até o final da década de 2020.
A Skyeports enfatiza que o vidro transparente não só melhora o bem-estar psicológico, simulando uma conexão com o ambiente externo, mas também facilita a manutenção e inspeções visuais, reduzindo riscos operacionais. Comparado a habitats infláveis ou impressos, que demandam montagem complexa e são vulneráveis a perfurações, as bolhas de vidro monolíticas oferecem uma solução mais robusta e escalável, potencialmente expandindo-se para cidades conectadas por pontes de vidro.
A Visão do CEO e o Caminho para a Realização
Dr. Martin Bermudez, CEO e arquiteto fundador da Skyeports, com background em design espacial, sonha com uma rede de habitats esféricos na Lua, em Marte e até em asteroides ou órbita terrestre. “Você nunca replicará a Terra perfeitamente, mas isso se aproxima muito, e poderíamos colocá-las em órbita um dia”, afirmou ele em entrevistas à NASA e veículos como Universe Today. Inspirado pela composição química do regolith, confirmada por amostras lunares, Bermudez contatou a NASA há cerca de dois anos, e a agência abraçou a ideia imediatamente, financiando-a via NIAC para explorar seu potencial transformador.
O NIAC, gerenciado pela Diretoria de Tecnologia Espacial da NASA, apoia conceitos visionários que podem revolucionar a exploração, como robôs oceânicos ou habitats de fungos, e o LUNGS se destaca por sua viabilidade econômica e ambiental. Clayton Turner, administrador associado da STMD, comentou: “Nossos próximos passos e saltos gigantes dependem de inovação. Conceitos nascidos do NIAC podem mudar radicalmente como exploramos o espaço profundo, operamos em órbita baixa e protegemos nosso planeta natal.” Bermudez e sua equipe, incluindo colaborações com especialistas em vidro como Josh Simpson, planejam apresentar resultados da Fase I no Simpósio NIAC de 2025, em setembro, em Filadélfia.
Testes e Cronograma: Da Terra à Lua em Poucos Anos
Os testes avançam em etapas rigorosas para validar a tecnologia. Em janeiro de 2026, experimentos ocorrerão em uma câmara de vácuo térmico, simulando o ambiente lunar para avaliar o derretimento e sopro do vidro. Em seguida, testes em microgravidade, possivelmente a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS), testarão a formação esférica sem gravidade. Experimentos reais na Lua estão previstos para os próximos dois a três anos, acelerados pela urgência do programa Artemis, que planeja o primeiro pouso tripulado (Artemis III) até 2028, com Artemis II – uma missão orbital lunar não tripulada – marcada para abril de 2026.
“We’re in a race against time because Artemis is moving so fast”, alertou Bermudez, destacando a necessidade de habitats prontos para missões de até dois meses na Base Camp Artemis, no polo sul lunar, perto das crateras Shackleton e de Gerlache, ricas em gelo d’água. A Base Camp incluirá módulos de habitat superficial, veículos lunares pressurizados e rovers para explorações de até 20 km, com a Skyeports contribuindo para soluções de abrigo inovadoras.
Contexto Global: Inovações Semelhantes e Impacto Futuro
Essa pesquisa se integra a esforços internacionais para habitats lunares sustentáveis. Em 2023, cientistas da Universidade de Aalen, na Alemanha, sugeriram tijolos de regolith “zapados” por laser para edifícios e estradas, em parceria com a Agência Espacial Europeia (ESA), demonstrando o potencial do regolith para construção. Outros projetos NIAC de 2025 incluem motores de fusão e habitats de fungos, ampliando o escopo da inovação espacial.
O LUNGS promete spinoffs terrestres, como avanços em manufatura de vidro e tecnologias de auto-reparação, estimulando a economia aeroespacial. Como descrito pela NASA, essa abordagem “inspira um espírito pioneiro, envisionando uma nova era de habitats off-world autossustentáveis, beneficiando a agência, a comunidade aeroespacial e a humanidade como um todo”. Com o Artemis progredindo – incluindo entregas de módulos como o International Habitation (I-Hab) em Artemis IV e ESPRIT em Artemis V –, habitats como as bolhas de vidro LUNGS podem tornar a Lua um posto avançado viável, pavimentando o caminho para Marte e além.
