Grécia aprova jornadas de trabalho de 13 horas
O parlamento grego aprovou em 16 de outubro de 2025 uma lei controversa que permite jornadas de trabalho de até 13 horas no setor privado em situações específicas, apesar de intensas protestos e greves gerais que paralisaram o país. Essa medida, batizada de “Trabalho Justo para Todos”, mantém a semana padrão de 40 horas, mas autoriza extensões voluntárias com um aumento salarial de 40% para as horas extras, limitadas a no máximo 150 horas anuais por trabalhador. Aprovada por 156 deputados do partido conservador Nova Democracia, mais dois independentes, a lei enfrentou 109 votos contra da oposição e abstenção do Syriza, que a chamou de “monstruosidade legislativa”. Sindicatos como a GSEE e a ADEDY organizaram duas greves gerais em outubro, interrompendo transportes públicos, ferries, trens e táxis, com milhares de manifestantes em Atenas e Tessalônica exigindo a revogação da reforma. A ministra do Trabalho, Niki Kerameus, defendeu a lei como uma modernização do mercado de trabalho, alinhada às regras da União Europeia que permitem flexibilidade em até 48 horas semanais em média ao longo de 12 meses, argumentando que isso evita que trabalhadores peguem múltiplos empregos para complementar renda. No entanto, críticos destacam que, em um contexto de crise de custo de vida, com aluguéis dobrando e salários estagnados abaixo dos níveis pré-crise de 2009, os trabalhadores enfrentam pressão para aceitar, pois recusar pode levar a demissões indiretas devido ao desequilíbrio de poder entre empregados e patrões. A lei aplica-se apenas ao setor privado, excluindo supermercados e serviços públicos, e é válida por até 37 dias ao ano, cerca de três por mês, em setores como turismo e manufatura para lidar com picos sazonais sem contratar temporários. Essa aprovação ocorre em um país que já registra as jornadas mais longas da UE, com média de 39,8 horas semanais e 1.897 horas anuais em 2023, segundo a OCDE e Eurostat, superando Bulgária, Polônia e Romênia, enquanto Alemanha e Países Baixos ficam em 34 e 32 horas, respectivamente.
Contexto da Reforma Trabalhista na Grécia
Essa nova lei de 2025 complementa uma reforma anterior de julho de 2024, que introduziu a semana de seis dias em setores específicos como indústria, saúde e turismo 24/7, elevando o total para até 48 horas semanais para combater a escassez de mão de obra e impulsionar o crescimento econômico pós-crise. A medida de 2024 permite que empregadores exijam um sexto dia de oito horas, com remuneração adicional de 40%, mas é opcional e visa reduzir a dependência de contratos temporários durante períodos de alta demanda, como o verão no turismo grego, que representa 20% do PIB. Com a economia se recuperando da dívida soberana de 2009-2018, que encolheu o PIB em 25%, a Grécia viu crescimento robusto nos últimos anos, permitindo cortes de impostos e aumentos salariais mínimos, mas o poder de compra permanece o mais baixo da UE, com 12,4% dos trabalhadores fazendo mais de 49 horas semanais, o maior índice europeu segundo Eurostat. A oposição, incluindo o Pasok e o Syriza, acusa o governo de Mitsotakis de regredir aos “tempos sombrios” do trabalho, argumentando que a flexibilidade beneficia apenas empresas, legitimando a “sobre-exploração” e destruindo o equilíbrio entre vida profissional e familiar. Representantes sindicais, como Stefanos Chatziliadis da ADEDY, alertam que “a saúde mental e física não pode ser trocada por dinheiro”, citando o risco de burnout em um país onde o desemprego juvenil ainda ronda 25% e o trabalho informal é comum. A ministra Kerameus rebateu, afirmando que a lei inclui 97 artigos com benefícios adicionais, como proteções contra demissões e proibição de acordos coletivos para horas ainda mais longas, e que jornadas de 13 horas já ocorrem na prática para múltiplos empregadores, mas agora com mais segurança e pagamento para um só patrão. Essa reforma faz parte de uma série de mudanças laborais desde 2019, que liberalizaram demissões e contratos, mas geraram críticas por priorizar a competitividade sobre os direitos, em um contexto onde a Grécia busca atrair investimentos estrangeiros em tecnologia e serviços. Enquanto a Europa debate reduções de jornada, como a semana de quatro dias testada na Bélgica e Islândia com ganhos de produtividade, a Grécia opta por extensão, refletindo pressões de recuperação econômica e globalização.
A Cultura 996: Origem e Controvérsias na China
A abordagem grega lembra a infame cultura 996 na China, um sistema de trabalho das 9h às 21h, seis dias por semana, totalizando 72 horas semanais, que se popularizou em meados dos anos 2010 entre gigantes de tecnologia como Alibaba, Tencent e ByteDance para acelerar o boom digital chinês. Essa prática, defendida por figuras como Jack Ma como uma “bênção enorme” para jovens ambiciosos em busca de sucesso, viola a lei trabalhista chinesa que limita a jornada a 44 horas semanais e proíbe horas extras excessivas, sendo rotulada de “escravidão moderna” por causar exaustão extrema, distúrbios mentais e mortes relacionadas a overwork, com casos notórios de programadores falecendo por infartos após turnos intermináveis. Protestos massivos em 2019, incluindo a campanha “996.ICU” no GitHub que viralizou globalmente, pressionaram o governo a declarar o sistema ilegal em 2021, com regulamentações que impõem multas a empresas infratoras e limites estritos a overtime, mas ele persiste em startups de IA e e-commerce para manter a competitividade em um mercado feroz. Estudos revelam impactos profundos: 98,8% dos trabalhadores de TI sofrem fadiga crônica, 75% dos urbanos em megacidades como Pequim e Xangai relatam estresse ocupacional severo, e há um êxodo de jovens profissionais para cidades menores ou exterior devido ao burnout e à falta de equilíbrio familiar, com taxas de divórcio e depressão elevadas. Apesar das controvérsias, o 996 contribuiu para o crescimento exponencial da economia digital chinesa, com o Vale do Silício chinês (Zhongguancun) rivalizando com o de São Francisco em inovação, mas à custa de direitos humanos, levando a ações judiciais e boicotes a empresas como a Pinduoduo, acusada de assédio para impor horários. Críticos ligam o sistema a uma cultura de “hustle” imposta pelo Partido Comunista para alcançar a “prosperidade comum”, mas relatórios da OIT destacam violações sistemáticas, com mais de 600 mil casos anuais de overwork na China, superando qualquer outro país. Essa herança controversa continua influenciando modelos globais, questionando se a inovação justifica o sacrifício da saúde coletiva.
Adoção nos EUA e o Debate sobre Inovação
No Vale do Silício, startups de inteligência artificial estão adotando elementos do 996 para acompanhar o ritmo chinês, com vagas de emprego explicitando exigências de 70 horas semanais em escritório, como visto em empresas como Rilla e outras na Bay Area, que filtram candidatos não “empolgados” com o ritmo intenso. Inspirados pelo sucesso de modelos como o DeepSeek da China, fundadores argumentam que horários estendidos são cruciais na “corrida global de IA”, permitindo iterações rápidas em um setor onde atrasos custam bilhões, ecoando a filosofia de Steve Jobs sobre dedicação total. No entanto, estudos mostram que essa cultura reduz a produtividade a longo prazo, com correlação inversa entre estresse e criatividade, levando a taxas de rotatividade de 40% em equipes de IA e incidentes de burnout que atrasam projetos, como relatado pela Harvard Business Review. Enquanto a China baniu o 996, nos EUA ele floresce sem regulamentação federal forte, agravado por demissões em massa em big techs como Google e Meta em 2024-2025, forçando trabalhadores a aceitar condições extremas para sobreviver no ecossistema de startups. Críticos, incluindo sindicatos como o Alphabet Workers Union, alertam para desigualdades, com minorias e mulheres sofrendo mais, e propõem alternativas como semanas de quatro dias, testadas com sucesso na Islândia para aumentar o bem-estar sem perda de output. A adoção transpacífica levanta questões éticas: o 996 impulsiona a inovação ao forçar aceleração, ou representa um retrocesso perigoso, perpetuando desigualdades e esgotamento em uma era onde a sustentabilidade laboral é chave para o progresso duradouro? Com a globalização do trabalho remoto, práticas como essas se espalham, desafiando políticas trabalhistas nos EUA e Europa, onde debates sobre salário mínimo e proteções crescem em resposta.
A informação é coletada da MSN e da BBC.
