Israel diz que voltará ao cessar-fogo após ataques em Gaza
O exército israelense anunciou oficialmente que retornará ao cumprimento integral do cessar-fogo na Faixa de Gaza após uma série de ataques aéreos realizados no domingo, que foram justificados como uma resposta necessária a uma “violação flagrante” do acordo por parte do Hamas. Esses bombardeios, que começaram no sul de Gaza, foram desencadeados por relatos de que “terroristas dispararam um míssil antitanque e tiros de arma de fogo” direcionados às tropas israelenses na região de Rafah, resultando na trágica morte de dois soldados. De acordo com fontes hospitalares locais e relatórios da ONU, os ataques aéreos causaram pelo menos 44 mortes civis e ferimentos em dezenas de pessoas até o final do dia, destacando mais uma vez os altos custos humanos em meio a um conflito que já dura mais de dois anos.
O Hamas, por sua vez, declarou publicamente que estava “desinformado” sobre qualquer tipo de confronto na área sob controle israelense, enfatizando que não havia ordens para ações ofensivas. A organização palestina reiterou seu compromisso inabalável com o cessar-fogo, mas acusou as forças israelenses de múltiplas violações prévias, incluindo incursões não autorizadas e bloqueios de ajuda humanitária. Em um comunicado veemente, o Hamas alertou que esses novos ataques poderiam precipitar um “colapso total” do frágil acordo, potencialmente reacendendo um ciclo de violência em escala ainda maior. Após as 21h no horário local de Gaza, as Forças de Defesa de Israel (FDI) emitiram um pronunciamento afirmando que “iniciaram a renovada aplicação do cessar-fogo”, com a promessa de honrar os termos do pacto e responder “com firmeza e precisão a qualquer violação futura”. No entanto, o comunicado israelense não esclareceu explicitamente se a suspensão anterior da entrada de ajuda humanitária em Gaza – anunciada horas antes – havia sido revertida, deixando uma incerteza que preocupa agências de ajuda internacional como a Cruz Vermelha e o Programa Mundial de Alimentos.
O Incidente Inicial que Desencadeou a Escalada de Violência
O ponto de partida para os eventos de domingo ocorreu mais cedo na manhã, quando o exército israelense divulgou detalhes precisos sobre um suposto ataque contra suas forças. De acordo com o porta-voz das FDI, militantes não identificados lançaram um míssil antitanque guiado e uma rajada de tiros contra tropas que estavam engajadas em operações de rotina para desmantelar infraestrutura terrorista na área de Rafah, uma zona estratégica no extremo sul de Gaza próxima à fronteira com o Egito. Essa região tem sido um foco constante de tensões devido à presença de túneis subterrâneos usados para contrabando de armas e suprimentos, que Israel alega serem explorados pelo Hamas para fins militares.
Em retaliação imediata, as FDI mobilizaram caças e drones para realizar ataques cirúrgicos, visando eliminar a ameaça imediata e destruir “eixos de túneis e estruturas militares usadas para atividades terroristas”. Esses alvos incluíam depósitos de munições e posições de lançamento de foguetes, conforme imagens divulgadas pelo exército israelense. A ala militar do Hamas, conhecida como Brigadas al-Qassam, negou categoricamente qualquer envolvimento direto em confrontos na região de Rafah. Em um raro comunicado detalhado, o grupo explicou que o contato com suas células operacionais remanescentes na área foi completamente cortado desde a retomada das hostilidades em março de 2025, após uma breve pausa nas negociações. “Portanto, não temos nenhuma conexão com os eventos que estão ocorrendo lá, e não podemos nos comunicar com nossos combatentes, se algum deles ainda estiver vivo ou operacional”, afirmou o porta-voz das Brigadas, destacando as dificuldades logísticas impostas pelo cerco israelense.
O escritório do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu confirmou as identidades das vítimas israelenses: o major Yaniv Kola, um oficial experiente com anos de serviço em operações de contraterrorismo, e o sargento Itay Yavetz, um jovem soldado de 22 anos em sua primeira missão de grande porte na região. Netanyahu, que se reuniu emergencialmente com o chefe do Estado-Maior das FDI, o ministro da Defesa e outros altos oficiais de segurança, instruiu ações “forçadas e proporcionais” contra alvos terroristas em toda a Faixa de Gaza. Essa reunião, realizada em Jerusalém, durou cerca de duas horas e resultou em uma estratégia que equilibra retaliação com a preservação do cessar-fogo, refletindo as pressões diplomáticas internas e externas sobre o governo israelense.
Impacto Humanitário nos Civis e Detalhes dos Bombardeios Aéreos
Os ataques tiveram um impacto devastador nas comunidades civis, exacerbando a crise humanitária em Gaza, onde mais de 2 milhões de pessoas já enfrentam escassez de alimentos, água potável e cuidados médicos devido ao bloqueio prolongado. Moradores residentes ao sul do Hospital Europeu, uma instalação médica vital na periferia de Rafah, descreveram cenas de caos absoluto: os bombardeios aéreos foram acompanhados por uma barragem intensa de artilharia pesada, com explosões que fizeram o chão tremer e danificaram estruturas civis próximas, incluindo casas e abrigos improvisados. Pelo menos 12 ataques aéreos foram confirmados no leste de Khan Younis, uma área densamente povoada que os locais apelidaram de “cinturão de fogo” devido à concentração de impactos. Colunas densas de fumaça preta se ergueram sobre a cidade, visíveis a quilômetros de distância, enquanto famílias deslocadas – muitas delas fugindo de combates anteriores – entraram em pânico, correndo para se abrigar em ruínas ou tendas já sobrecarregadas.
No centro de Gaza, a tragédia se agravou com relatos de ataques precisos em áreas civis. Um médico-chefe do Hospital al-Aqsa Martyrs, em Deir al-Balah, confirmou a chegada de nove corpos após dois bombardeios separados: o primeiro atingiu um pequeno café à beira-mar montado em uma tenda em al-Zawaida, um vilarejo costeira onde moradores se reuniam para refeições simples em meio à escassez; o segundo destruiu um prédio residencial em Nuseirat, um campo de refugiados histórico. Testemunhas oculares, entrevistadas pela BBC via telefone, relataram bolas de fogo gigantes iluminando o céu noturno ao longo da costa, seguidas por explosões secundárias poderosas – possivelmente de munições armazenadas – que ecoaram como trovões. Ambulâncias da Defesa Civil de Gaza, com sirenes uivando, e equipes de resgate voluntárias correram para o local, mas enfrentaram obstáculos como escombros e fogo cruzado esporádico. Seis das vítimas no ataque de al-Zawaida eram identificados como membros das Brigadas al-Qassam, de acordo com fontes locais confiáveis, incluindo Yahya al-Mabhouh, o comandante da unidade de elite do Hamas no Batalhão de Jabalia. Sua morte representa uma das perdas mais significativas para a estrutura de comando do grupo desde o início do cessar-fogo em outubro, potencialmente enfraquecendo operações futuras, mas também alimentando narrativas de martírio entre apoiadores palestinos.
Em outro incidente separado, mas no mesmo dia, um médico do Hospital Al-Awda, em Nuseirat, relatou a entrada de quatro corpos após um ataque aéreo israelense que atingiu uma escola primária convertida em abrigo para famílias deslocadas. Entre as vítimas, estavam várias mulheres e crianças, incluindo uma mãe com seus três filhos pequenos, que haviam fugido de Khan Younis semanas antes. O hospital, já operando no limite com suprimentos médicos escassos, viu um influxo de feridos com queimaduras graves e fraturas, destacando a vulnerabilidade das infraestruturas civis em zonas de conflito.
Declarações do Presidente Trump e o Papel Americano na Mediação
Ao desembarcar em Washington DC no domingo à noite, o presidente Donald Trump, em sua primeira coletiva de imprensa após uma viagem diplomática agitada, reafirmou que o cessar-fogo “ainda está em pleno vigor e será mantido”. Ele descreveu as ações do Hamas como “tumultuadas e envolvendo alguns tiros isolados”, mas especulou que poderia se tratar de “rebeldes internos” ou facções dissidentes dentro do grupo armado, em vez de uma violação coordenada pela liderança. “De qualquer forma, isso será tratado de maneira adequada. Com rigidez para dissuadir, mas de forma apropriada para preservar a paz”, acrescentou Trump, ecoando seu estilo característico de retórica dura combinada com otimismo sobre negociações.
A pressão diplomática dos Estados Unidos surge como elemento pivotal para estabilizar o acordo, especialmente após a cúpula recente no Egito. O enviado especial de Trump para o Oriente Médio, Steve Witkoff – um empresário e diplomata experiente em negociações de alto nível –, e seu genro Jared Kushner, que desempenhou um papel chave no Acordo de Abraão durante o primeiro mandato de Trump, estão programados para chegar a Israel nas próximas horas. Sua missão inclui reuniões com Netanyahu, representantes do Hamas via canais qataris e líderes da Autoridade Palestina, visando reforçar os termos do pacto e prevenir escaladas. Mais cedo no dia, o Departamento de Estado americano divulgou “informações confiáveis de inteligência” indicando que o Hamas planejava um ataque “iminente” contra civis palestinos dentro de Gaza, o que seria interpretado como uma “violação direta e grave” do cessar-fogo. Tal ação “minharia o progresso significativo alcançado através de árduos esforços de mediação internacional”, alertou o comunicado oficial, citando fontes de inteligência compartilhadas com aliados como o Egito e a Jordânia. O Hamas refutou essas alegações com veemência, chamando-as de “propaganda israelense” destinada a justificar agressões.
Detalhes Amplos do Acordo de Cessar-Fogo de 20 Pontos
O cessar-fogo de 20 pontos, negociado pelos Estados Unidos com mediação egípcia e qatarense e iniciado em 10 de outubro de 2025, representa um marco raro em um conflito marcado por décadas de impasse. Seus termos principais incluem um fim imediato a todas as hostilidades, a retirada parcial das tropas israelenses para a “linha amarela” – uma zona de buffer demarcada ao norte, leste e sul de Gaza para facilitar a supervisão internacional –, e um aumento substancial na entrada de ajuda humanitária, com pelo menos 500 caminhões diários de suprimentos essenciais como alimentos, medicamentos e materiais de reconstrução. Até o momento, o Hamas cumpriu sua obrigação de libertar todos os reféns israelenses vivos – cerca de 101 indivíduos – e entregou os restos mortais de 12 dos 28 falecidos durante o cativeiro, muitos dos quais morreram em condições precárias.
Em reciprocidade, Israel libertou 250 prisioneiros palestinos de suas prisões de segurança máxima, incluindo figuras proeminentes do movimento nacionalista, além de 1.718 detidos administrativos capturados em Gaza durante operações de busca. Adicionalmente, Israel devolveu os corpos de 15 palestinos para cada resto de refém israelense, um gesto simbólico que ajudou a aliviar tensões familiares de ambos os lados. No entanto, o acordo impõe ao Hamas a obrigação de relinquar suas armas pesadas e estruturas militares, transformando o grupo em uma entidade política sem capacidade ofensiva para não representar mais uma ameaça existencial a Israel. Essa cláusima tem sido controversa, com o Hamas argumentando que ela compromete sua capacidade de autodefesa contra ocupação.
Apesar desses avanços, desafios persistem. O Hamas acusa Israel de armar e apoiar gangues criminosas de saqueadores, como as Forças Populares de Abu Shabab, que operam com impunidade na metade sul de Gaza sob controle israelense. Esses grupos, compostos por ex-militantes e oportunistas, têm sido implicados em roubos de ajuda e extorsões, exacerbando a insegurança local. O Hamas, que governa Gaza há 18 anos apesar do bloqueio, agora enfrenta uma fragmentação interna de grupos armados rivais, o que complica sua autoridade.
Uma fonte local, com conhecimento direto do incidente de domingo e falando sob condição de anonimato à BBC, revelou que combatentes do Hamas inicialmente atacaram um grupo afiliado a Abu Shabab no sudeste de Rafah – uma área firmemente controlada pelas FDI. Os militantes palestinos teriam sido pegos de surpresa por fogo de tanques israelenses, levando a um tiroteio breve e caótico de cerca de 15 minutos, antes que aviões de guerra bombardeassem o local para neutralizar a ameaça. Um oficial sênior do exército israelense contrapôs essa narrativa, afirmando que houve “pelo menos três incidentes distintos em que o Hamas disparou diretamente contra nossas tropas posicionadas atrás da linha amarela”, e enfatizou que os eventos “não tinham conexão com qualquer tipo de luta interna palestina”, mas sim com tentativas deliberadas de romper o cessar-fogo. Atualmente, as FDI ocupam e controlam mais de 50% do território de Gaza, com checkpoints e patrulhas que monitoram movimentos diários.
Conflitos internos recentes, como os choques ferozes há uma semana em Gaza City entre forças de segurança do Hamas e membros armados da influente família Dughmush – um clã com histórico de alianças voláteis –, resultaram em 27 mortes e ferimentos em mais de 50 pessoas, ilustrando a instabilidade crescente. Trump já havia emitido um alerta direto ao Hamas via postagem no Truth Social: “Se o Hamas continuar matando pessoas em Gaza, o que absolutamente não fazia parte do acordo, não teremos escolha a não ser intervir e eliminá-los”, escreveu o presidente na segunda-feira anterior, esclarecendo posteriormente que qualquer ação seria conduzida por Israel, sem o envio de tropas americanas ao terreno.
Contexto Histórico e Implicações de Longo Prazo
A atual campanha militar israelense em Gaza foi lançada como retaliação ao devastador ataque de 7 de outubro de 2023, perpetrado por militantes liderados pelo Hamas, que resultou na morte de cerca de 1.200 civis e soldados israelenses no sul do país, além do sequestro de 251 reféns – incluindo mulheres, crianças e idosos. Esse evento, o mais letal contra Israel em sua história moderna, desencadeou uma ofensiva que transformou Gaza em um dos cenários de guerra mais intensos do século XXI.
Desde então, ataques israelenses causaram a morte de pelo menos 68.000 pessoas em Gaza, de acordo com o Ministério da Saúde controlado pelo Hamas – uma cifra que inclui combatentes, civis e vítimas colaterais, e é considerada confiável por organizações internacionais como a ONU e a Anistia Internacional, apesar de disputas sobre a contagem exata de combatentes. O domingo representou o dia mais violento em Gaza desde que o presidente Trump reuniu líderes mundiais no Egito na semana passada, sob o icônico lema “Paz no Oriente Médio”, em uma cúpula que visava consolidar ganhos diplomáticos. O acordo de cessar-fogo, embora testado ao limite, oferece uma janela estreita para negociações mais amplas, mas sua sobrevivência depende de concessões mútuas e monitoramento internacional rigoroso para evitar que incidentes isolados evoluam para uma guerra total.
