Quem é Sanae Takaichi, a ‘Dama de Ferro’ do Japão e primeira mulher a ser primeira-ministra?
Sanae Takaichi está prestes a se tornar a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra do Japão, um marco histórico para o país que luta há décadas com a representatividade feminina na alta política. Sua vitória veio após uma votação acirrada de liderança no parlamento japonês, onde ela superou rivais internos no Partido Liberal Democrático (PLD), o partido que domina a cena política pós-guerra. Na terça-feira, ela teve uma audiência formal com o imperador Naruhito no Palácio Imperial de Tóquio, um ritual constitucional que oficializa a nomeação e a coloca à frente do governo. Essa ascensão não só quebra barreiras de gênero, mas também sinaliza uma continuidade conservadora no poder, em um momento de instabilidades econômicas e tensões regionais na Ásia. Aqui vai um panorama detalhado sobre a nova líder japonesa, baseado em fontes confiáveis como biografias oficiais do PLD, relatórios da agência Kyodo News e análises de especialistas em relações internacionais.
Qual é o histórico de Takaichi?
Com 64 anos, Sanae Takaichi ingressou na política japonesa no início da década de 1990, filiada ao Partido Liberal Democrático (PLD), que tem sido a força dominante no Japão desde o fim da Segunda Guerra Mundial, governando por mais de 60 anos em coalizões variadas. Nascida em 1964 na província de Nara, uma região central conhecida por seus templos antigos e rica herança cultural – incluindo o famoso Parque de Nara com seus cervos sagrados –, Takaichi cresceu em um ambiente modesto, longe do glamour das elites políticas de Tóquio. Sua família era de classe média baixa, e ela frequentemente menciona em entrevistas como sua infância em uma área rural ajudou a forjar seu senso de resiliência e conexão com as raízes tradicionais do Japão.
Ela se formou em Direito pela prestigiada Universidade de Kobe em 1987, uma instituição respeitada mas não tão elitista quanto a Universidade de Tóquio, de onde saem muitos líderes do PLD, ou escolas internacionais como a Harvard Kennedy School, frequentadas por figuras como o ex-primeiro-ministro Yoshihide Suga. Antes de entrar na política, Takaichi trabalhou como repórter e produtora na rede de televisão MBS (Mainichi Broadcasting System), afiliada à NHK, onde cobriu temas sociais e econômicos. Essa experiência jornalística, que durou cerca de uma década, aprimorou suas habilidades de comunicação e análise, permitindo que ela se destacasse em debates parlamentares com discursos claros e persuasivos, conforme destacado em perfis da revista Weekly Asahi.
Takaichi é amplamente reconhecida como a protegida do falecido primeiro-ministro Shinzo Abe, que liderou o Japão de 2012 a 2020 e é considerado o político mais influente da era moderna. Abe a promoveu rapidamente: ela serviu como ministra da Administração Interna e Comunicações em 2014, e mais tarde como ministra das Relações Exteriores e de Assuntos Económicos sob o governo de Fumio Kishida, que renunciou em 2024 após escândalos de corrupção. Durante esses mandatos, Takaichi lidou com crises como a pandemia de COVID-19, gerenciando políticas de distribuição de vacinas e apoio econômico às prefeituras, o que solidificou sua reputação como uma administradora eficiente. Sua lealdade a Abe, inclusive após o assassinato dele em 2022 durante um comício eleitoral, a posicionou como guardiã de seu legado ideológico, incluindo o revisionismo histórico e o fortalecimento da identidade nacional japonesa.
Quais são as posições políticas de Takaichi?
Inspirada na icônica Margaret Thatcher, a “Dama de Ferro” britânica que transformou a economia do Reino Unido nos anos 1980 com reformas liberais duras, Sanae Takaichi ganhou o mesmo apelido na mídia japonesa por seu conservadorismo intransigente e defesa de valores tradicionais. Perfis no The Japan Times e no Nikkei Asia a descrevem como uma figura que combina nacionalismo com pragmatismo econômico, sempre priorizando a soberania japonesa em um mundo multipolar.
Na corrida recente pela liderança do PLD, que culminou em outubro de 2025, Takaichi prometeu reviver elementos do “Abenomics”, a estratégia econômica de Abe lançada em 2013. Esse plano triplo – composto por estímulos fiscais agressivos (como cortes de impostos e investimentos em infraestrutura), afrouxamento monetário pelo Banco do Japão (com taxas de juros negativas para combater a deflação crônica) e reformas estruturais (incluindo desregulamentação de mercados de trabalho e abertura a investimentos estrangeiros) – ajudou o Japão a sair de duas décadas de estagnação. Takaichi planeja expandir isso com foco em inovação tecnológica, como subsídios para semicondutores e energias renováveis, visando contrabalançar a dependência de importações da China. Ela argumenta que, em meio à inflação global pós-pandemia, o Japão precisa de um “novo Abenomics” para proteger as pequenas empresas e as famílias de classe média, que sofreram com o iene fraco e preços altos de energia.
Nas questões sociais, Takaichi mantém posições firmes e controversas. Ela se opõe firmemente ao casamento igualitário, afirmando em discursos no parlamento que isso contrariaria as “normas familiares tradicionais” que sustentam a sociedade japonesa, onde a taxa de natalidade já é uma das mais baixas do mundo (cerca de 1,3 filhos por mulher, segundo o Ministério da Saúde). Sobre imigração, ela advoga por controles mais rígidos, propondo vistos temporários estritos para trabalhadores estrangeiros em vez de caminhos para cidadania, citando preocupações com a integração cultural e a segurança nacional – uma visão alinhada ao PLD, mas criticada por grupos de direitos humanos como a Anistia Internacional. No tema da sucessão imperial, Takaichi defende a manutenção da preferência por herdeiros masculinos, argumentando que isso preserva a continuidade de uma monarquia milenar que simboliza a unidade nacional, apesar de pressões internacionais por igualdade de gênero.
Como uma autodeclarada “falcão em relação à China”, Takaichi é vocal no apoio a um Japão mais militarizado. Ela endossa o aumento do orçamento de defesa para 2% do PIB até 2027, conforme metas estabelecidas pelo governo Kishida, e a aquisição de mísseis de longo alcance para deter ameaças no Mar do Leste da China. Sua postura no Estreito de Taiwan é clara: manutenção do status quo para evitar escaladas, mas com fortalecimento de laços com Taipei. Ela visitou Taiwan pelo menos cinco vezes desde 2012, reunindo-se com líderes como a presidente Tsai Ing-wen, o que provocou protestos diplomáticos de Pequim, registrado em comunicados do Ministério das Relações Exteriores chinês. Essas viagens destacam sua visão de uma aliança mais robusta com os EUA e a Austrália no âmbito do Quad (grupo de segurança do Indo-Pacífico).
Outro aspecto polêmico é sua devoção ao Santuário Yasukuni em Tóquio, um complexo xintoísta que homenageia 2,5 milhões de japoneses mortos em guerras, mas também 14 criminosos de guerra de classe A da Segunda Guerra Mundial, incluindo Hideki Tojo. Takaichi o visitou anualmente, inclusive em 2023 e 2024, descrevendo-o como um “local de luto patriótico” em entrevistas à NHK. Essas visitas reacendem tensões com a Coreia do Sul e a China, que as veem como glorificação do imperialismo japonês, mas Takaichi as usa para reforçar o orgulho nacional, especialmente entre eleitores mais velhos que apoiam o PLD.
O que a vitória de Takaichi significa para o Japão?
A eleição de Takaichi reforça uma trajetória de governança conservadora no Japão, com uma inclinação mais à direita que pode moldar a agenda doméstica e externa por anos. Especialistas preveem que isso trará uma guinada nacionalista, mas adaptada ao contexto japonês, que difere significativamente do conservadorismo ocidental – menos focado em cortes sociais e mais em proteção estatal. Stephen Nagy, professor de política e estudos internacionais na International Christian University de Tóquio, explicou isso em detalhes em uma entrevista à Al Jazeera dias antes da votação: “O conservadorismo japonês enfatiza a segurança nacional acima de tudo. Significa ser firme contra a China, fortalecer as relações com os EUA e o Ocidente, e salvaguardar o sistema imperial como pilar da identidade cultural. Ao mesmo tempo, inclui um governo intervencionista que sustenta amplos programas de bem-estar social, como pensões generosas e saúde universal, para manter a coesão social em uma sociedade envelhecida.”
Sob Takaichi, espera-se um reforço nas Forças de Autodefesa, com investimentos em ciberdefesa e alianças regionais, sem alterar o artigo 9 da Constituição pacifista – uma linha vermelha para muitos no PLD. Na imigração, políticas mais restritivas podem agravar a escassez de mão de obra em setores como agricultura e cuidados idosos, mas ela promete treinamentos para trabalhadores japoneses. Economicamente, o revival do Abenomics pode estimular o crescimento, que estagnou em 1,2% no ano fiscal de 2024, segundo o FMI, mas críticos alertam para riscos de dívida pública, já em 250% do PIB.
Essa vitória também avança a igualdade de gênero, ainda que timidamente: mulheres ocupam apenas 10% dos assentos no parlamento japonês, de acordo com o Instituto de Pesquisa de Mulheres na Política, e Takaichi é apenas a segunda a liderar o PLD, após Seiko Noda em 2008. Seu sucesso inspira ativistas, mas levanta debates sobre se ela representa um feminismo conservador ou uma exceção em um partido dominado por homens. No geral, Nagy conclui: “Takaichi guiará um PLD renovado, conservador no molde japonês – priorizando estabilidade, tradição e projeção de poder suave na Ásia.”
O que vem a seguir para Takaichi?
O trajeto de Takaichi até a vitória foi marcado por obstáculos, e ela assume o cargo de uma posição vulnerável, como a quarta primeira-ministra em cinco anos – uma rotatividade que reflete a instabilidade crônica do PLD desde a renúncia de Abe. O partido perdeu a maioria absoluta nas duas câmaras do parlamento (Câmara dos Representantes e Câmara dos Conselheiros) nas eleições de 2023 e 2024, forçado a depender de coalizões. Sua aliança de décadas com o Sanseito, um partido de extrema-direita conhecido por posições anti-imigração radicais, ruiu imediatamente após sua eleição como líder do PLD em meados de outubro de 2025. O colapso veio de brigas sobre doações de campanha ilegais e reformas anticorrupção, expondo fissuras internas que a mídia japonesa, como o Yomiuri Shimbun, ligou a um escândalo maior envolvendo envelopes de dinheiro não declarados em convenções partidárias.
Para superar isso, o PLD forjou uma nova coalizão com o Partido da Inovação do Japão (Nippon Ishin no Kai), um grupo conservador centrista fundado em 2012 que defende eficiência governamental e federalismo. Essa aliança, negociada às pressas, garantiu os 233 votos necessários na Câmara dos Representantes para a vitória de Takaichi esta semana, mas é frágil, com divergências sobre privatizações e impostos. Como primeira-ministra, ela enfrentará uma agenda lotada: a crise do custo de vida, agravada pela inflação de 3,5% em bens essenciais como arroz e eletricidade (dados do Escritório de Estatísticas do Japão), exige medidas urgentes como subsídios alimentares e controle de preços de energia, especialmente após o fechamento de usinas nucleares pós-Fukushima.
Internacionalmente, Takaichi herdará os ecos da guerra comercial iniciada pelo presidente dos EUA Donald Trump em seu segundo mandato, com tarifas sobre aço e eletrônicos que afetam exportadores japoneses como Toyota e Sony. Relações com a China estão tensas devido a disputas territoriais nas Ilhas Senkaku e ciberataques atribuídos a hackers chineses, enquanto a Coreia do Norte continua testando mísseis balísticos sobre o Mar do Japão – pelo menos 20 lançamentos em 2025, segundo o Ministério da Defesa. O PLD ainda lida com as repercussões de um escândalo de corrupção de 2024, onde líderes foram acusados de aceitar ¥600 milhões em fundos secretos, erodindo a aprovação do partido para abaixo de 30%, conforme pesquisas da NHK.
Analistas do Brookings Institution e do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) em Washington alertam que Takaichi precisará temperar suas arestas mais afiadas para sobreviver. Sua retórica hawkish pode unir a base conservadora, mas alienar moderados e parceiros de coalizão, arriscando uma moção de não confiança no parlamento nos primeiros seis meses. Para se consolidar, ela deve priorizar vitórias rápidas, como um pacote de estímulo econômico de ¥20 trilhões e cúpulas com Trump e o premiê sul-coreano para amenizar tensões regionais. Sua experiência em gabinetes anteriores a prepara para isso, mas o sucesso dependerá de sua capacidade de equilibrar tradição com reformas modernas em um Japão que envelhece rapidamente e busca relevância global.
A informação é coletada da Al Jazeera e da BBC.
