Trump diz que está encerrando as negociações comerciais com o Canadá devido a um anúncio anti-tarifas
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surpreendeu o mundo na quinta-feira ao anunciar o encerramento imediato das negociações comerciais com o Canadá, seu segundo maior parceiro comercial. Essa decisão ameaça desestabilizar uma relação econômica vital que sustenta milhões de empregos e movimenta centenas de bilhões de dólares anualmente entre os dois países vizinhos. O estopim foi um anúncio publicitário lançado na semana anterior pelo governo da província de Ontário, no Canadá, que utilizou um trecho de um discurso histórico do ex-presidente americano Ronald Reagan para criticar as políticas tarifárias de Trump. De acordo com declarações oficiais da Casa Branca, Trump vê o anúncio como uma provocação direta e uma interferência inaceitável nas decisões soberanas dos Estados Unidos.
Essa não é a primeira vez que tensões comerciais entre EUA e Canadá chegam a esse ponto durante o segundo mandato de Trump, iniciado em janeiro de 2025 após sua reeleição. Analistas econômicos, como os do Brookings Institution, destacam que o comércio bilateral é fundamental para a estabilidade regional, com os EUA dependendo de importações canadenses para setores como energia e manufatura. No ano fiscal de 2024, por exemplo, o comércio total entre os dois países ultrapassou US$ 760 bilhões, conforme relatórios do Departamento de Comércio dos EUA. A interrupção das negociações poderia elevar custos para consumidores americanos e canadenses, afetando desde preços de gasolina até a produção de automóveis na América do Norte.
O Anúncio que Provocou a Reação de Trump
Tudo começou em 16 de outubro, quando o governo de Ontário, liderado pelo premier Doug Ford, divulgou o anúncio online. O vídeo, que rapidamente ganhou tração nas redes sociais e em canais de TV, apresentava um clipe editado de um discurso proferido por Ronald Reagan em 1987, durante sua presidência. Nesse trecho, Reagan descreve as tarifas como uma medida que “prejudica todo trabalhador e consumidor americano” e que pode “desencadear guerras comerciais ferozes”, alertando para os riscos de retaliações internacionais que enfraquecem a economia global.
O anúncio foi projetado para destacar os efeitos negativos das tarifas impostas por Trump sobre as exportações canadenses, especialmente em indústrias como automotiva e de recursos naturais. Ford, em sua postagem inicial no X (antigo Twitter), enfatizou: “Usando todas as ferramentas que temos, nunca pararemos de fazer o caso contra as tarifas americanas sobre o Canadá. O caminho para a prosperidade é trabalhar juntos.” O vídeo incluía imagens de trabalhadores canadenses afetados pelas políticas tarifárias, intercaladas com o áudio de Reagan, e terminava com um chamado para que os americanos repensem o impacto dessas medidas em suas próprias comunidades.
A campanha foi planejada para ter um alcance amplo, incluindo veiculações durante eventos esportivos de grande audiência nos EUA. Especificamente, Ford confirmou que o anúncio rodaria durante os dois primeiros jogos da World Series da Major League Baseball no fim de semana, visando maximizar a exposição para o público americano. Essa estratégia publicitária, orçada em milhões de dólares pelo governo provincial, foi criticada por alguns como uma jogada política arriscada, mas Ford defendeu-a como necessária para proteger os interesses econômicos de Ontário, que exporta bilhões em bens para os EUA anualmente.
No entanto, a Fundação Ronald Reagan reagiu com veemência logo após a exibição do anúncio. Em comunicado oficial, a entidade afirmou que o clipe “distorce” o contexto original do discurso e que não houve solicitação de permissão para seu uso. Para contextualizar, o discurso completo de Reagan, disponível no canal do YouTube da Biblioteca Presidencial Ronald Reagan, dura cerca de cinco minutos e foi gravado em Camp David, residência presidencial nos Montes Catoctin, em Maryland. Reagan o proferiu pouco antes de uma cúpula com o então primeiro-ministro japonês Yasuhiro Nakasone, em um momento de crescente protecionismo nos EUA devido à inundação do mercado americano com carros e eletrônicos japoneses baratos.
No vídeo integral, Reagan expressa apoio inequívoco ao “livre comércio justo”, argumentando que mais de cinco milhões de empregos americanos estão diretamente ligados a exportações estrangeiras, com milhões adicionais dependendo de importações acessíveis. Ele admite ter imposto tarifas mais altas em produtos japoneses, como semicondutores e motocicletas, para mitigar danos a fabricantes locais – uma medida que afetou empresas como a Honda e a Yamaha. No entanto, Reagan foi enfático ao dizer que era “relutante” em adotar tais ações, citando como tarifas elevadas na década de 1930 exacerbaram a Grande Depressão, levando a uma contração econômica global. A descrição do vídeo no YouTube o classifica como “sem restrições” para acesso e uso, o que levanta questões sobre a legalidade da edição feita por Ontário, embora um disclaimer no anúncio canadense esclareça que ele não foi aprovado pela fundação ou pela biblioteca.
Especialistas em direito de propriedade intelectual, como os consultados pela Associated Press, notam que, embora o áudio seja de domínio público em muitos aspectos, edições que alteram o significado podem configurar uso indevido, especialmente em contextos políticos internacionais. Essa controvérsia adicionou combustível ao debate sobre ética em campanhas publicitárias transfronteiriças.
Resposta de Trump e Acusações de Fraude
Donald Trump não demorou a responder. Na noite de quinta-feira, ele usou sua plataforma preferida, o Truth Social, para atacar o anúncio. “A Fundação Ronald Reagan acaba de anunciar que o Canadá usou fraudulentamente um anúncio, que é FALSO, apresentando Ronald Reagan falando negativamente sobre tarifas”, escreveu ele. Trump alegou que a campanha canadense visava “interferir na decisão da Suprema Corte dos EUA e de outros tribunais”, defendendo as tarifas como “críticas para a economia e a segurança nacional americana”. Essa postagem, que acumulou milhões de visualizações em poucas horas, reflete o estilo combativo de Trump nas redes sociais, frequentemente usado para mobilizar sua base política.
Na segunda-feira seguinte, Trump postou novamente, cometendo um erro factual notável ao afirmar que Reagan “amava tarifas para o nosso país e sua segurança nacional”. Essa declaração ignora o conteúdo predominante do discurso de 1987, onde Reagan promove o multilateralismo comercial e critica o isolacionismo. Transcrições oficiais da era Reagan, arquivadas na Biblioteca Reagan em Simi Valley, Califórnia, confirmam o tom pró-comércio livre, alinhado com iniciativas como o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), precursor da OMC. A CNN verificou essas fontes e destacou a imprecisão em sua cobertura, citando historiadores como H.W. Brands, da Universidade do Texas, que descreveu a interpretação de Trump como “uma distorção histórica clara”.
Do lado canadense, o primeiro-ministro Mark Carney, ex-governador do Banco do Canadá e do Banco da Inglaterra, adotou uma postura mais diplomática. Em coletiva de imprensa na sexta-feira, pouco antes de embarcar para Kuala Lumpur, na Malásia, para participar de fóruns econômicos asiáticos, Carney afirmou “Não podemos controlar a política comercial dos EUA”. Ele observou que as abordagens tarifárias americanas evoluíram drasticamente desde as décadas de 1980, 1990 e 2000, quando o foco era no livre comércio. Hoje, os EUA aplicam tarifas a praticamente todos os parceiros, de acordo com dados da Organização Mundial do Comércio (OMC). Carney elogiou o progresso nas negociações bilaterais sobre tarifas, descrevendo-as como “frutíferas” e enfatizando a necessidade de soluções mutuamente benéficas.
A CNN também buscou comentários do escritório de Dominic LeBlanc, ministro canadense das Relações Intergovernamentais e responsável pelo comércio com os EUA, mas não recebeu resposta imediata. LeBlanc tem sido uma figura chave nas discussões, especialmente no contexto da revisão do USMCA prevista para 2026, que pode redefinir regras sobre tarifas setoriais.
Tensões Crescentes na Relação EUA-Canadá
A relação entre EUA e Canadá, outrora descrita como a “fronteira mais pacífica do mundo”, tem enfrentado erosão significativa desde a posse de Trump em 2025. Tarifas impostas em setores estratégicos canadenses – como 25% sobre aço e alumínio, 10% sobre madeira e restrições a exportações de energia – foram justificadas por Trump como medidas de proteção nacional, mas causaram retaliações e ressentimentos profundos. De acordo com o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), em 2024, os EUA importaram US$ 411,9 bilhões em bens do Canadá, incluindo petróleo bruto (responsável por 60% das importações energéticas americanas) e veículos. Em contrapartida, os EUA exportaram US$ 348 bilhões para o Canadá, criando uma interdependência que qualquer disrupção poderia abalar.
No Canadá, os efeitos são palpáveis. A taxa de desemprego subiu para 7,2% em setembro de 2025, o nível mais alto em nove anos, segundo o Statistics Canada, com perdas concentradas em Ontário e Quebec, províncias dependentes da indústria automotiva. Muitos canadenses responderam com boicotes a produtos americanos – como marcas de fast-food e eletrônicos – e uma queda de 15% nas viagens turísticas aos EUA, conforme dados da Statista. Essa “diplomacia do consumidor” reflete um sentimento antiamericano crescente, alimentado por declarações de Trump, como sua sugestão recorrente de transformar o Canadá no “51º estado”, vista como humilhante por muitos.
Jack Buffington, diretor do programa de gestão de cadeia de suprimentos da Universidade de Denver, alertou à CNN sobre os perigos: “Isso é a última coisa que qualquer país precisa agora”. Ele apontou para a fragilidade da cadeia de suprimentos norte-americana, especialmente em meio às disputas EUA-China, onde o Canadá atua como ponte para semicondutores e minerais raros. Relatórios do Peterson Institute for International Economics estimam que uma escalada tarifária poderia custar US$ 50 bilhões em perdas anuais para a região, afetando desde a produção de chips em fábricas da Intel até a extração de lítio em minas canadenses.
Mark Carney, eleito em abril de 2025 com uma campanha que previa rupturas na parceria com os EUA, tem priorizado a diversificação. Em postagem no X na quinta-feira, ele anunciou planos ambiciosos para dobrar as exportações canadenses não americanas até 2035, focando em mercados como União Europeia, Ásia e América Latina. “Nossa missão central é edificar uma economia mais resiliente, que não dependa excessivamente de um só parceiro”, escreveu Carney. Essa estratégia inclui acordos recentes com a Austrália para exportação de energia renovável e negociações com a Índia para tecnologia agrícola, conforme atualizações do Global Affairs Canada.
Histórico de Conflitos e Momentos de Alívio
As fricções comerciais não são novidade no segundo mandato de Trump. Em fevereiro de 2025, um dos episódios mais tensos ocorreu quando Doug Ford ameaçou cortar o fornecimento de eletricidade de Ontário para estados americanos como Nova York e Michigan, o que poderia elevar contas de energia em até 20%, segundo modelagens da Energy Information Administration (EIA). Essa ameaça, ligada a disputas sobre tarifas em hidrelétricas, foi recuada após mediações diplomáticas, mas deixou cicatrizes. Trump, por sua vez, suspendeu negociações em maio de 2025 sobre o USMCA, citando “práticas desleais”, apenas para retomá-las semanas depois sob pressão de lobistas industriais.
Um raro momento de descontração veio no início de outubro, quando Carney visitou a Sala Oval para uma reunião bilateral. Trump, em tom leve, brincou sobre uma “fusão” entre EUA e Canadá, mas elogiou Carney como um “líder de classe mundial com visão global”. Dominic LeBlanc descreveu o encontro como “bem-sucedido, positivo e substancial”, com mandatos claros para negociadores: fechar acordos rápidos sobre tarifas em aço (visando reduções de 15% para 8%), alumínio e fluxos de energia transfronteiriços. Essa cúpula, a primeira em meses, foi vista como um passo para estabilizar o USMCA antes de sua revisão em 2026, que envolverá debates sobre cláusulas de origem e disputas trabalhistas.
