A fúria cresce em Israel devido ao atraso na liberação dos reféns mortos
Apenas horas após a libertação dos 20 reféns vivos restantes por parte do Hamas, que foram trazidos de volta a Israel na segunda-feira em um momento de alívio coletivo após meses de tensão, o presidente do Parlamento israelense, Amir Ohana, removeu seu broche amarelo – um símbolo icônico de solidariedade adotado por políticos, cidadãos e famílias desde o início do conflito em outubro de 2023. Esse emblema serve como um lembrete constante do compromisso nacional em resgatar todos os cativos, independentemente do custo. Enquanto Ohana se virava para agradecer ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que chegara mais cedo ao Knesset sob aplausos estrondosos por sua mediação pivotal no acordo de cessar-fogo, ele declarou que se sentia “honrado” em tirá-lo. O broche, na verdade, havia sido pessoalmente entregue a ele pelo pai de um dos reféns recém-liberados, tornando o gesto ainda mais simbólico.
Esse instante de celebração, no entanto, ecoou como uma provocação para aqueles que ainda aguardam ansiosamente o retorno de seus entes queridos, incluindo familiares que estavam sentados na mesma sala do Parlamento. “Foi desrespeitoso, sem qualquer traço de empatia”, desabafou Ruby Chen, pai do refém ítalo-israelense Itay Chen, que foi capturado em Gaza durante o ataque inicial do Hamas em 7 de outubro de 2023 e posteriormente confirmado morto pelas autoridades israelenses. Itay, um jovem de 19 anos que servia no exército, foi um dos muitos civis e soldados levados para o enclave como parte da estratégia de barganha do grupo militante. “Isso faz parte da narrativa que ele quer impor: o acordo está feito, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu concluiu o negócio e tudo acabou”, explicou Chen em entrevista exclusiva à CNN. Ele continuou: “Mas não acabou de forma alguma, porque ainda há reféns lá dentro, vivos ou mortos, e cada hora a mais é uma agonia indizível para nós”.
A história dos reféns remonta ao brutal ataque do Hamas em 2023, que resultou na morte de cerca de 1.200 israelenses e na captura de mais de 250 pessoas. Ao longo dos dois anos seguintes, negociações intermitentes, mediadas por Qatar, Egito e agora intensificadas pelos EUA sob Trump, levaram a libertações parciais. O acordo atual, anunciado como um marco pelo presidente Trump em seu discurso no Knesset, prevê fases sequenciais: primeiro, a libertação de todos os reféns vivos e mortos; depois, negociações sobre o desarmamento do Hamas e a reconstrução de Gaza.
Desafios na Recuperação dos Corpos e o Impacto do Conflito
Até a noite de terça-feira, 14 de outubro de 2025, apenas oito dos 28 reféns mortos ainda retidos em Gaza haviam sido entregues pelo Hamas, o que ampliou o sofrimento de famílias que assistiram ao país inteiro comemorar o retorno dos 20 vivos como um triunfo nacional. Muitos desses reféns mortos foram identificados por DNA ou relatórios de inteligência, mas seus corpos permanecem em áreas de alto risco no enclave. Pelo acordo de cessar-fogo, ratificado na semana anterior, o Hamas tinha um prazo estrito até as 12h locais (4h no horário do leste dos EUA) de segunda-feira para transferir todos os reféns a Israel, tanto os vivos quanto os falecidos, via pontos de passagem supervisionados por observadores internacionais.
Naquela noite fatídica, apenas quatro corpos foram liberados inicialmente Guy Illouz, um civil de 45 anos de Sderot; Yossi Sharabi, irmão gêmeo de um refém liberado anteriormente; Bipin Joshi, um trabalhador estrangeiro de origem nepalesa que vivia em Israel; e Daniel Peretz, um soldado de 22 anos. Esses retornos foram confirmados pelo exército israelense (IDF) em uma coletiva de imprensa rápida, mas sem detalhes sobre o estado dos corpos, que foram imediatamente transportados para análise forense em hospitais de Tel Aviv.
Mais de 24 horas depois, na noite de terça, o IDF anunciou a recepção de mais quatro corpos na passagem de Kerem Shalom. Na manhã de quarta-feira, três foram formalmente identificados como Uriel Baruch, um pai de família de 35 anos raptado de sua casa em um kibutz; Tamir Nimrodi, um turista de 28 anos capturado durante uma visita à fronteira; e Eitan Levi, um voluntário de 40 anos que trabalhava em projetos humanitários. O quarto corpo, no entanto, gerou confusão: análises preliminares revelaram que não pertencia a um refém israelense, mas a um palestino de Gaza, conforme duas fontes de alto escalão do governo israelense informaram à CNN. Especialistas forenses israelenses sugerem que se tratou de um erro de identificação por parte do Hamas, possivelmente devido ao caos nos túmulos coletivos criados pelo conflito, e não de uma ação deliberada para sabotar o acordo. Essa revelação destacou as dificuldades logísticas em um território devastado, onde o Hamas controla informações limitadas sobre os locais exatos dos corpos.
Por meses, autoridades israelenses, baseadas em inteligência de satélites e interrogatórios de prisioneiros do Hamas, avaliaram que o grupo militante poderia enfrentar obstáculos significativos para localizar e exumar todos os reféns mortos restantes. Fontes do IDF indicam a existência de mapas detalhados e dados de inteligência que pinpointam vários corpos em bairros como Jabalia e Khan Younis, mas as tentativas de acesso foram sistematicamente bloqueadas por dois anos de bombardeios israelenses intensos. Esses ataques, justificados por Israel como necessários para desmantelar a infraestrutura do Hamas, deixaram vastas áreas de Gaza em pilhas de escombros – um cenário que, segundo relatórios da ONU de setembro de 2025, enterrou estimados 10.000 palestinos civis, criando um labirinto de ruínas contaminadas por munições não explosas e detritos. Essa destruição não só complica a recuperação, mas também levanta questões éticas sobre responsabilidade compartilhada no resgate.
Como parte do plano de cessar-fogo, o exército israelense se comprometeu a colaborar com uma força-tarefa internacional, composta por especialistas da Cruz Vermelha, ONU e observadores egípcios e qataris, para acessar e recuperar os corpos restantes em zonas de cessar-fogo. No entanto, detalhes operacionais permanecem vagos: como garantir a segurança em áreas controladas por facções rivais do Hamas? E quem arcará com os custos de escavações em massa? Especialistas em relações internacionais, citados pela CNN, alertam que atrasos podem minar a confiança no acordo, especialmente com relatos de tensões internas no Hamas após a mediação de Trump.
Reações do Governo, População e Impactos Humanitários
Até terça-feira à noite, a indignação se espalhava rapidamente entre o público israelense e até dentro do governo pela demora na devolução dos reféns mortos pelo Hamas. Manifestações espontâneas eclodiram em Tel Aviv e Jerusalém, com famílias de reféns erguendo cartazes e faixas exigindo ação imediata. O ministro da Defesa, Israel Katz, qualificou a lentidão como “uma falha clara no cumprimento de compromissos internacionais”, em uma declaração veiculada pela TV estatal Kan. Ele parou short de ameaças militares diretas, o que analistas interpretam como um sinal cauteloso de que o cessar-fogo, frágil após dois anos de guerra, pode ser preservado – pelo menos por enquanto.
Um oficial de segurança israelense, falando sob condição de anonimato, confirmou à CNN que a passagem de fronteira de Rafah – o principal portal para ajuda humanitária no sul de Gaza – permaneceu fechada na quarta-feira devido a verificações de segurança pendentes. No entanto, suprimentos essenciais começaram a fluir via Kerem Shalom, o cruzamento alternativo no Negev. A ONU, em seu boletim diário de 15 de outubro de 2025, reportou que Israel autorizou a entrada de apenas 300 caminhões de ajuda em Gaza naquela quarta-feira – metade do volume diário de 600 acordado no plano de Trump para aliviar a crise humanitária. Além disso, não houve permissão para envios de combustível ou gás, exceto para usos humanitários estritos, como geradores de hospitais. Essa restrição, segundo o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA), agrava a escassez em Gaza, onde mais de 2 milhões de pessoas enfrentam fome iminente e colapso de serviços básicos após 24 meses de bloqueio intermitente.
“Eu acredito que, com essa abordagem diplomática e de pressão controlada, receberemos notícias concretas – talvez nas próximas horas ou dias – sobre o retorno de mais reféns falecidos. Mas estamos absolutamente determinados a trazê-los todos de volta, custe o que custar”, afirmou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em uma coletiva de imprensa na residência oficial em Jerusalém, na noite de terça, logo antes da chegada do segundo grupo de corpos. Suas palavras, no entanto, soaram vazias e hipócritas para muitos ouvintes, especialmente em meio a acusações persistentes de que Netanyahu prolongou o conflito para desviar o foco de seus múltiplos escândalos políticos. Seu julgamento por corrupção, iniciado em 2020 e envolvendo acusações de suborno, fraude e quebra de confiança, retomou na manhã de quarta-feira no Tribunal Distrital de Tel Aviv, com testemunhas chave sendo interrogadas sobre ligações entre o premiê e magnatas da mídia.
Frustrações das Famílias, Críticas Políticas e o Fórum dos Reféns
O Fórum das Famílias de Reféns e Desaparecidos, uma coalizão de mais de 100 famílias formada logo após o ataque de 7 de outubro de 2023, expressou na terça-feira suas frustrações profundas com Netanyahu e sua coalizão de direita: “Aqueles que retiram bandeiras e o broche de reféns de suas roupas, que encobrem sua responsabilidade com aplausos ensurdecedores, traem os valores morais fundamentais do judaísmo e profanam o espírito do acordo assinado com o sangue de nossos entes”. O comunicado, postado nas redes sociais do fórum e repercutido por veículos como Haaretz, reflete uma divisão crescente na sociedade israelense, onde o alívio pela libertação dos vivos contrasta com a raiva pela negligência aparente aos mortos.
Para Yael Adar, mãe do refém morto Tamir Adar – um homem de 38 anos, pai de três filhos, raptado de um festival de música perto da fronteira –, ouvir os aplausos efusivos da elite política no Knesset durante a visita de Trump a fez se sentir profoundamente “traída e isolada”. Sentada entre legisladores, ela destacou suas preocupações sobre como os falecidos seriam tratados sob os termos do acordo. “O que foi assinado no documento foi que os corpos dos mortos seriam devolvidos de acordo com a capacidade logística do Hamas. Agora, eles simplesmente dizem: ‘Isso é o máximo que pudemos fazer, dada a destruição'”, relatou ela em entrevista à mídia local Ynet. “Por que os corpos dos nossos mortos valem menos do que os vivos? Eles merecem o mesmo respeito e urgência”, questionou, com a voz embargada, ecoando o sentimento de dezenas de famílias que organizam vigílias semanais em praças de Israel.
Questões Pendentes no Acordo e o Papel Internacional
Com a raiva pública se intensificando – manifestada em petições online que já reuniram mais de 50.000 assinaturas exigindo sanções contra o Hamas –, questões cruciais sobre os próximos passos no processo de paz permanecem sem respostas claras. A segunda rodada de negociações de cessar-fogo, programada para Doha sob mediação qatarense, está em seus estágios iniciais e enfrenta obstáculos logísticos. Até agora, apenas a primeira fase do plano foi implementada: a libertação inicial de reféns e uma pausa nos combates. Das 20 cláusulas principais do plano proposto por Trump – que inclui desarmamento gradual do Hamas, reconstrução de Gaza com financiamento internacional e garantias de segurança para Israel –, apenas quatro ou cinco foram cumpridas, segundo fontes diplomáticas citadas pela Reuters.
Muitas das questões mais espinhosas ainda pairam no ar: o Hamas concordará em depor completamente suas armas, incluindo foguetes e túneis subterrâneos? Quem assumirá a governança de Gaza no pós-conflito – uma autoridade palestina reformada, uma administração internacional ou algo híbrido? Embora o presidente Trump tenha declarado de forma categórica que “a guerra acabou para sempre” durante seu voo para o Oriente Médio na segunda-feira, em uma entrevista a bordo do Air Force One, a realidade no terreno é bem diferente. Tropas israelenses mantêm posições estratégicas dentro do enclave, com relatos de CNN de 14 de outubro confirmando confrontos violentos entre o Hamas e grupos rivais como o Jihad Islâmico Palestino em Gaza City, incluindo execuções públicas que ameaçam a estabilidade frágil.
Enquanto isso, as famílias dos reféns – presas em um limbo emocional entre avanços diplomáticos e devastação pessoal – continuam a esperar por closure. “Isso me transporta de volta ao horror de 7 de outubro, quando tudo desabou”, confidenciou Hagit Chen, mãe de Itay, à CNN em uma entrevista emocionante. Em um vídeo viral compartilhado nas redes sociais, visível para milhões, ela implorou: “Continuem usando o broche de reféns em suas roupas. É tão importante que o mundo e o governo saibam que estamos juntos nessa luta, e que ninguém pode nos abandonar agora”.
A informação é coletada da CNN e da BBC.
