A Espanha aumenta a ajuda humanitária para Gaza e impõe um embargo de armas a Israel
O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, elevou o tom das críticas à ofensiva militar de Israel contra o Hamas em Gaza, anunciando um pacote de nove medidas concretas para pressionar o governo israelense a interromper o que ele descreve como uma crise humanitária grave e violações sistemáticas das leis internacionais. Essas ações, que incluem um embargo total de armas, restrições a navios e aviões, e um aumento significativo na ajuda humanitária para 150 milhões de euros em 2026, visam não apenas formalizar políticas já em vigor, mas também apoiar diretamente a população palestina afetada pelo conflito que dura quase dois anos.
Críticas Detalhadas de Sánchez à Situação em Gaza
Pedro Sánchez, líder do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), tem sido um dos críticos mais vocais na Europa sobre as ações de Israel em Gaza. Em um discurso televisionado, ele afirmou que “há uma diferença entre defender seu país e bombardear hospitais ou deixar crianças inocentes morrerem de fome”. Ele descreveu a situação como um “ataque injustificável à população civil”, citando relatórios da ONU que caracterizam as ações como genocídio. Sánchez destacou números alarmantes mais de 60 mil mortos, dois milhões de deslocados, sendo metade crianças, e enfatizou que isso não se trata de autodefesa, mas de uma “exterminação de um povo indefeso” e uma “violação de todas as leis humanitárias internacionais”. Ele criticou a comunidade internacional por não intervir de forma eficaz, afirmando que “apesar disso, a comunidade global está falhando em deter essa tragédia”. Essa posição reflete uma polarização crescente na Europa, onde países da União Europeia estão divididos sobre sanções contra Israel, enquanto Sánchez insiste que a Espanha deve agir mesmo que sozinha não consiga parar o conflito.
O contexto do conflito remonta a outubro de 2023, quando o Hamas lançou um ataque que matou cerca de 1.200 pessoas em Israel, levando a uma resposta militar israelense que resultou em dezenas de milhares de vítimas palestinas, a maioria civis, incluindo mulheres e crianças. Relatórios do Ministério da Saúde de Gaza, considerados subestimados por especialistas, indicam pelo menos 64.522 palestinos mortos, mais de 163 mil feridos e milhares desaparecidos sob escombros. Sánchez também mencionou a fome generalizada em áreas como a Cidade de Gaza, causada pelo bloqueio israelense, que especialistas da ONU descrevem como uma catástrofe humanitária fabricada.
Medidas Anunciadas pelo Governo Espanhol em Detalhe
As nove medidas anunciadas por Sánchez formam um pacote abrangente que precisa de aprovação no gabinete e ratificação pelo Parlamento espanhol, possivelmente por meio de um decreto real para torná-las permanentes e urgentes. Elas foram negociadas entre o PSOE e seu parceiro de coalizão, o partido Sumar, e incluem ações em áreas militares, humanitárias e diplomáticas, com o objetivo de “parar o genocídio em Gaza, perseguir os responsáveis e apoiar a população palestina”. Sánchez reconheceu as limitações, dizendo: “A Espanha não tem bombas nucleares. Não podemos parar a ofensiva israelense sozinhos, mas não vamos parar de tentar”.
Embargo de Armas e Restrições Militares Ampliadas
A medida central é a formalização de um embargo total e permanente na compra, venda e exportação de armas, munições e equipamentos militares para Israel, que já está em vigor de fato desde outubro de 2023. Isso elimina qualquer ambiguidade legal e proíbe transações com empresas israelenses envolvidas em defesa. Além disso, navios transportando combustível ou materiais para as forças armadas israelenses serão proibidos de atracar em portos espanhóis, como os de Barcelona ou Valência, que historicamente servem rotas mediterrâneas. Aviões estatais carregando suprimentos de defesa para Israel não poderão sobrevoar o espaço aéreo espanhol, o que pode afetar rotas logísticas entre a Europa e o Oriente Médio. Essas restrições visam interromper qualquer apoio indireto à campanha militar israelense, alinhando-se com resoluções da ONU que pedem cessar-fogo.
Aumento da Ajuda Humanitária e Apoio à UNRWA
A Espanha comprometeu-se a elevar sua ajuda humanitária total para Gaza para 150 milhões de euros em 2026, um aumento significativo em comparação com anos anteriores, focando em suprimentos essenciais como comida, remédios e abrigo para os deslocados. Isso inclui uma contribuição adicional imediata de 10 milhões de euros para a Agência de Socorro e Trabalhos das Nações Unidas para os Refugiados da Palestina no Oriente Próximo (UNRWA), que fornece serviços vitais como educação, saúde e distribuição de alimentos para milhões de palestinos. A UNRWA tem enfrentado crises de financiamento após acusações de envolvimento com o Hamas, mas a Espanha manteve seu apoio, alinhando-se com decisões de outros países europeus. Além disso, o país planeja aumentar sua presença na missão da União Europeia em Rafah, enviando tropas adicionais para monitorar a fronteira e facilitar a entrega de ajuda, além de projetos conjuntos com a Autoridade Palestina para agricultura, saúde e suprimentos médicos. Esses esforços abordam a fome aguda em Gaza, onde centenas de palestinos já morreram de inanição devido ao cerco israelense, considerado um crime de guerra pela Corte Internacional de Justiça.
Outras Restrições e Medidas de Apoio Diplomático
Indivíduos diretamente envolvidos em violações de direitos humanos, crimes de guerra ou no que Sánchez chama de “genocídio” em Gaza serão proibidos de entrar na Espanha, o que pode incluir figuras como o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e membros de seu gabinete. Essa proibição se baseia em leis internacionais e poderia ser aplicada via listas de sanções da União Europeia. A Espanha também imporá um embargo sobre importações de produtos oriundos de assentamentos israelenses ilegais nos territórios palestinos ocupados, como a Cisjordânia, para combater o deslocamento forçado de palestinos e promover boicotes econômicos. Serviços consulares para cidadãos espanhóis vivendo nesses assentamentos serão reduzidos ao mínimo obrigatório, limitando suporte a emergências, o que reflete a posição da Espanha contra a ocupação.
Outras ações incluem fortalecer o apoio à Autoridade Palestina por meio de projetos em agricultura e saúde, e reforçar controles fronteiriços para prevenir atividades que forcem o deslocamento em Gaza. Sánchez enfatizou que essas medidas, embora não suficientes sozinhas, pretendem pressionar Netanyahu para aliviar o sofrimento palestino e alinhar a Espanha com a defesa da paz e dos direitos humanos.
Reações de Israel e a Resposta da Espanha
Israel reagiu imediatamente às medidas, com o ministro das Relações Exteriores, Gideon Sa’ar, rotulando-as de “antissemitas” e proibindo a entrada de duas ministras espanholas de esquerda, Yolanda Díaz (vice-primeira-ministra e líder do Sumar) e Sira Rego (ministra da Juventude), em território israelense. Díaz respondeu que é “um ponto de orgulho ser banida por um estado genocida”. Em retaliação, a Espanha convocou seu embaixador em Tel Aviv para consultas, rejeitando as acusações como “falsas e caluniosas” e afirmando que não será intimidada em sua defesa da lei internacional e dos direitos humanos.
Essa troca reflete tensões crescentes desde que a Espanha reconheceu o Estado palestino em maio de 2024, junto com Irlanda e Noruega, o que irritou Israel. Uma pesquisa do Pew Research Center de junho de 2025 mostra que 75% dos espanhóis têm uma visão negativa de Israel, com 46% considerando-a “muito desfavorável”, a taxa mais alta entre nações não muçulmanas pesquisadas.
Contexto Maior do Conflito e Ações Internacionais da Espanha
O conflito em Gaza continua com bombardeios intensos, e relatórios da ONU alertam para fome em massa na Cidade de Gaza, onde Netanyahu ordenou evacuações. A Espanha tem apoiado resoluções da ONU por cessar-fogo, o Tribunal Penal Internacional na perseguição de Netanyahu por crimes como fome forçada e assassinato, e o caso de genocídio liderado pela África do Sul na Corte Internacional de Justiça. Políticos espanhóis, como a ex-ministra Ione Belarra e a ex-prefeita de Barcelona Ada Colau, participaram de ações como a Flotilha Global Sumud para entregar ajuda a Gaza, rompendo o bloqueio israelense. Protestos em Madri e outras cidades espanholas, como a leitura de nomes de mais de 18.500 crianças palestinas mortas, destacam o apoio popular às medidas de Sánchez.
