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A França lidera um número de nações que reconhecem o estado palestino em meio à indignação pela conduta de Israel na guerra de Gaza

Nações Unidas, Nova York — A França, juntamente com vários outros países ocidentais, anunciou formalmente o reconhecimento de um Estado palestino durante uma sessão na ONU na segunda-feira, 22 de setembro de 2025. Essa medida representa um passo significativo para aumentar o isolamento internacional de Israel, que segue avançando com sua guerra em Gaza e expandindo assentamentos na Cisjordânia ocupada, territórios que são centrais para as aspirações palestinas de soberania.

Esse reconhecimento ocorre em um momento de crescente pressão global sobre Israel, impulsionado pela prolongada crise humanitária em Gaza, onde mais de 65.300 palestinos foram mortos desde o início do conflito em outubro de 2023, de acordo com dados do Ministério da Saúde controlado pelo Hamas. Países como Mônaco, Malta, Luxemburgo e Bélgica se juntaram à França durante uma cúpula especial sobre a solução de dois Estados, co-presidida pela França e pela Arábia Saudita, em Nova York. A Bélgica, por exemplo, condicionou a efetivação legal de seu reconhecimento à remoção do Hamas do poder e à libertação de todos os reféns israelenses ainda detidos, destacando preocupações com a segurança regional.

No discurso proferido na Assembleia Geral da ONU, o presidente francês Emmanuel Macron enfatizou que o reconhecimento de um Estado palestino é “a única solução que permitirá a Israel viver em paz e segurança”, descrevendo o ato como uma “derrota para o Hamas” e uma forma de promover a coexistência pacífica. “Devemos fazer tudo ao nosso alcance para preservar a possibilidade real de uma solução de dois Estados, com Israel e Palestina vivendo lado a lado em paz e segurança, com fronteiras reconhecidas e Jerusalém como capital compartilhada”, declarou Macron, reforçando que essa abordagem não compromete o apoio histórico da França a Israel. Ele acrescentou que “o reconhecimento dos direitos legítimos do povo palestino, que tem sua própria história, dignidade e aspirações, não tira nada dos direitos do povo israelense, ao qual a França ofereceu suporte desde o primeiro dia do conflito”.

Macron também chamou atenção para a urgência humanitária, pedindo um cessar-fogo imediato, a libertação dos 48 reféns israelenses ainda em poder do Hamas e o fim dos bombardeios em Gaza, que têm causado massacres e deslocamentos em massa. “Chegou a hora de pôr fim à guerra, aos bombardeios, aos massacres e à fuga forçada da população. Estamos a momentos de perder completamente a chance de paz, e não podemos mais esperar”, afirmou o presidente francês, recebendo aplausos da delegação palestina presente na ONU.

Durante a mesma cúpula, o secretário-geral da ONU, António Guterres, qualificou a situação em Gaza como “intolerável e inaceitável”, argumentando que a solução de dois Estados é “o único caminho viável para sair desse pesadelo prolongado”. Em resposta a críticas de que o reconhecimento poderia recompensar o terrorismo, Guterres afirmou categoricamente que a condição de Estado para os palestinos “é um direito fundamental, não uma recompensa ou barganha”, e que sem ela, “não haverá paz duradoura no Oriente Médio, e o radicalismo poderá se espalhar globalmente”. Ele também condenou o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, que matou cerca de 1.200 israelenses e levou ao sequestro de 251 pessoas, mas enfatizou que nada justifica a resposta desproporcional e o sofrimento coletivo imposto à população de Gaza.

O anúncio da França segue uma onda recente de reconhecimentos por parte de outros países, incluindo o Reino Unido, Canadá, Austrália e Portugal, que declararam seu apoio no fim de semana anterior, elevando o total para mais de 150 nações-membros da ONU que reconhecem o Estado palestino — o que representa cerca de 80% da comunidade internacional. Países como o Brasil, que reconheceu a Palestina em 2010, e Portugal, cujo presidente Marcelo Rebelo de Sousa descreveu o ato como “o reconhecimento da paz, da justiça e da estabilidade regional”, reforçaram a importância de um cessar-fogo imediato, libertação de reféns e acesso humanitário irrestrito. No caso de Portugal, o reconhecimento foi apresentado como uma mensagem clara de apoio à coexistência pacífica, alinhada com esforços para reformar o sistema político palestino.

Apesar do simbolismo forte, especialistas alertam que esses reconhecimentos são em grande parte simbólicos sem o respaldo dos Estados Unidos, que detêm poder de veto no Conselho de Segurança da ONU e optaram por não participar da cúpula. Os EUA, sob a presidência de Donald Trump, expressaram desacordo com aliados como o Reino Unido, mas não detalharam medidas para pressionar Israel a encerrar a guerra. “Washington sabe que, sem ações concretas como sanções econômicas ou diplomáticas, esses reconhecimentos podem se tornar gestos vazios”, analisou Daniel Forti, analista sênior da ONU no Crisis Group.

A cúpula em Nova York visa intensificar os esforços para reviver a solução de dois Estados, que prevê a criação de um Estado palestino independente na Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental como capital, territórios capturados por Israel na Guerra dos Seis Dias de 1967. No entanto, após quase dois anos de conflito em Gaza — marcado por bombardeios intensos, fome como arma de guerra e destruição de infraestrutura — e a expansão acelerada de assentamentos israelenses na Cisjordânia, que agora abrigam mais de 700 mil colonos judeus, muitos temem que a viabilidade de um Estado palestino esteja se esvaindo. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, em discurso na ONU, destacou que “um Estado se baseia em território, população e governo, elementos que têm sido sistematicamente negados aos palestinos”, e criticou o uso da fome como tática de guerra, apelando para que mais países sigam o exemplo do reconhecimento.

Resposta Furiosa de Israel

O movimento global para reconhecer o Estado palestino gerou reações intensas em Israel, onde líderes veem a iniciativa como uma “recompensa ao terrorismo” e uma ameaça à segurança nacional. O embaixador israelense na ONU, Danny Danon, criticou duramente a cúpula, chamando-a de “farsa” e “circo”, e expressou decepção específica com Macron “Em 8 de outubro, você ficou ao lado de Israel e falou sobre os reféns. Hoje, você está seguindo em frente, deixando os reféns para trás e traindo nossos aliados”. Danon acusou os países participantes de ignorarem o sofrimento israelense após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, em reunião governamental no domingo, prometeu combater “a propaganda caluniosa” na ONU e em outros fóruns, descrevendo os apelos por um Estado palestino como “um prêmio absurdo para o terrorismo que colocará em risco nossa existência”. Netanyahu argumentou que qualquer reconhecimento ignora a necessidade de negociações diretas e poderia fortalecer grupos como o Hamas e o Irã, que apoiam militantes palestinos.

Figuras da extrema-direita israelense foram ainda mais radicais. O ministro de Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, exigiu “contramedidas imediatas”, incluindo a “aplicação de soberania total em Judeia e Samaria” — termo bíblico usado por Israel para se referir à Cisjordânia ocupada — e o “desmantelamento completo da Autoridade Palestina”. Ben-Gvir, conhecido por suas posições nacionalistas, argumentou que o reconhecimento internacional fortalece o “terrorismo” e requer anexação para proteger interesses israelenses.

Impulso Diplomático e Implicações Globais

O anúncio da França posiciona os Estados Unidos como o único membro permanente do Conselho de Segurança da ONU — ao lado de China, Rússia, Reino Unido e França — a não reconhecer o Estado palestino, destacando um isolamento crescente de Washington e Tel Aviv na arena internacional. “Essa onda recente de reconhecimentos reforça o quão fora do padrão Israel e os EUA se tornaram nessa questão em comparação com o resto do mundo”, observou Daniel Forti à CNN.

As aspirações palestinas por reconhecimento pleno na ONU datam de 2011, quando solicitaram status de membro total. Atualmente, a Palestina tem status de Estado observador não-membro, concedido em 2012, mas a adesão plena requer aprovação de pelo menos nove dos 15 membros do Conselho de Segurança, sem vetos dos permanentes. Os EUA têm historicamente vetado resoluções favoráveis aos palestinos, alinhando-se à política israelense, como no bloqueio de uma resolução em 2024 que teria reconhecido o Estado palestino.

A França, ao contrário, vê o reconhecimento como uma “alavanca para benefícios concretos”, ancorada em compromissos da Autoridade Palestina, como reformas em leis sobre prisioneiros, no sistema educacional e na realização de eleições em um quadro democrático aprimorado. O Palácio do Eliseu destacou que a iniciativa de 22 de setembro baseia-se na Declaração de Nova York, adotada por 142 membros da ONU no início do mês, que delineia passos para uma solução de dois Estados e apoia um governo palestino livre do Hamas.

Especialistas como os do Crisis Group sugerem que, para ter impacto real, os reconhecimentos precisam ser acompanhados de medidas práticas, como sanções contra assentamentos israelenses, apoio econômico à Autoridade Palestina ou ações na União Europeia para pressionar negociações. Macron mencionou planos para abrir uma embaixada francesa na Palestina assim que os reféns forem libertados e o Hamas for removido, enfatizando a necessidade de um sistema democrático palestino para restaurar a esperança após décadas de ocupação.

No contexto mais amplo, o conflito israelo-palestino remonta a mais de um século, com raízes na partilha da Palestina pós-Segunda Guerra Mundial e a criação de Israel em 1948, seguida por guerras e ocupações. A solução de dois Estados, endossada internacionalmente desde os Acordos de Oslo em 1993, enfrenta obstáculos como a expansão de assentamentos, a divisão interna palestina entre Fatah e Hamas, e a relutância de Israel em ceder territórios. Com a França agora liderando esse impulso diplomático, ao lado de aliados como a Arábia Saudita, a cúpula da ONU pode pavimentar o caminho para mais reconhecimentos, incluindo de nações como Alemanha e Itália, que sinalizaram interesse.

Enquanto isso, a França, que abriga as maiores comunidades judaica e muçulmana da Europa, posiciona-se como mediadora, equilibrando apoio a Israel com defesa dos direitos palestinos. Macron torce para que países árabes reconheçam Israel em troca, normalizando relações e estabelecendo paz duradoura, mas advertiu que “sem dois Estados, o radicalismo se espalhará pelo mundo”.