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Israel recebe restos mortais de mais dois reféns enquanto o Hamas diz que precisa de mais tempo para alcançar os outros

Autoridades israelenses anunciaram na quarta-feira que receberam os restos mortais de mais dois reféns, em um desenvolvimento que ocorre poucas horas após o exército revelar que um dos corpos entregues anteriormente não pertencia a um refém listado. Essa descoberta inesperada intensificou a confusão e as tensões em torno do frágil acordo de cessar-fogo entre Israel e o grupo militante Hamas, que visa encerrar dois anos de conflito devastador na Faixa de Gaza.

Os caixões contendo os restos mortais foram transferidos pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), uma organização neutra que atua como intermediária em negociações humanitárias sensíveis, diretamente do controle de Hamas no final da quarta-feira. Ao chegarem ao território israelense, os caixões foram imediatamente encaminhados para um laboratório forense avançado em Tel Aviv, especializado em análises de DNA e identificação de vítimas de conflitos. O exército israelense (IDF, na sigla em inglês) emitiu um alerta cauteloso, enfatizando que as identidades dos reféns ainda precisam ser verificadas por meio de testes rigorosos, como comparação de perfis genéticos com amostras familiares. Essa precaução é essencial para evitar erros que possam causar mais dor às famílias já traumatizadas pelo sequestro e pela guerra.

O escritório do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu confirmou o recebimento dos corpos em um comunicado oficial divulgado à imprensa. A nota destacou que Israel obteve, por intermédio da Cruz Vermelha, caixões com os restos de reféns que agora passam por identificação formal. “O IDF apela ao público para que aja com sensibilidade e aguarde a confirmação oficial, a qual será comunicada prioritariamente às famílias dos falecidos”, concluiu o texto, refletindo a delicadeza do momento em um país onde o apoio público ao governo é influenciado por avanços no resgate de reféns. Netanyahu, que enfrenta críticas internas por sua gestão do conflito, usou o anúncio para reforçar o compromisso de Israel com o acordo, embora sem detalhes adicionais sobre o estado dos corpos.

Detalhes do Acordo de Cessar-Fogo e as Entregas Iniciais

O episódio integra um acordo de cessar-fogo mais amplo, negociado por mediadores internacionais como Catar, Egito e Estados Unidos, que começou a ser implementado na segunda-feira passada. Esse pacto, inspirado em tréguas anteriores como a de novembro de 2023, representa um raro momento de alívio em um conflito que já dura dois anos. Na segunda-feira, Hamas libertou os últimos 20 reféns vivos mantidos em cativeiro em Gaza, muitos dos quais eram civis israelenses, incluindo mulheres, crianças e idosos, sequestrados durante o ataque inicial do grupo. Horas depois, quatro corpos foram devolvidos, seguidos por mais quatro na terça-feira.

Ao todo, Israel aguarda o retorno dos restos mortais de 28 reféns, a maioria presumidamente mortos durante o caos do ataque de 7 de outubro de 2023 ou nas subsequentes operações militares em Gaza. Esse ataque, considerado o mais letal contra Israel em décadas, envolveu militantes de Hamas invadindo comunidades fronteiriças, resultando em tiroteios, incêndios e sequestros em massa. Relatórios da ONU estimam que cerca de 1.200 pessoas foram mortas nesse dia, incluindo 800 civis, o que desencadeou uma ofensiva israelense em retaliação.

Contudo, uma controvérsia significativa surgiu com um dos corpos entregues na terça-feira. Testes forenses preliminares conduzidos pelo IDF revelaram que “o quarto corpo repassado por Hamas não corresponde a nenhum dos reféns cadastrados na lista oficial”. Essa discrepância, reportada pela AP, não foi imediatamente esclarecida quanto à identidade do corpo – poderia tratar-se de um erro de identificação por parte de Hamas, um corpo de um militante ou até de um civil palestino. A revelação alimentou acusações de que o grupo pode não estar cumprindo integralmente o acordo, que estipula a devolução de todos os 28 corpos em troca de concessões israelenses, como a libertação de prisioneiros palestinos. Analistas de segurança, citados pela Reuters, sugerem que tais incidentes podem derivar de documentação inadequada em zonas de guerra, onde registros são mantidos sob condições precárias.

Posição de Hamas e os Desafios Logísticos na Busca pelos Restos Restantes

Diante das críticas crescentes, o braço armado de Hamas, conhecido como Brigadas Izz ad-Din al-Qassam, publicou um comunicado na quarta-feira reafirmando seu compromisso com os termos do acordo. “Os corpos restantes exigem esforços substanciais e equipamentos especializados para serem localizados e recuperados. Estamos investindo um grande esforço para finalizar esse arquivo de forma responsável”, declarou o grupo, conforme traduzido e reportado por veículos como Al Jazeera e a BBC. Até a manhã de quinta-feira, aproximadamente 19 corpos ainda permaneciam sem localização confirmada por Hamas, o que prolonga a angústia das famílias israelenses.

Hamas justifica os atrasos apontando para as dificuldades operacionais em Gaza, uma região densamente povoada e agora em ruínas após bombardeios intensos. Escombros de edifícios destruídos, minas terrestres e a presença de forças israelenses remanescentes complicam as buscas, exigindo equipes de resgate treinadas e ferramentas como detectores de metais e escavadeiras. Relatórios da ONU de 2023 e 2024 destacam que, em conflitos semelhantes, como na Síria, tais recuperações podem levar semanas ou meses, especialmente sem acesso a tecnologia avançada. O grupo militante também acusa Israel de obstruir o processo ao manter bloqueios aéreos e terrestres, embora o acordo preveja cooperação mútua.

Israel Devolve Corpos de Palestinos e Revela Evidências de Maus-Tratos

Em contrapartida, Israel avançou em suas obrigações ao devolver mais 45 corpos de palestinos na quarta-feira, elevando o total para 90 restos mortais enviados de volta a Gaza para rituais de sepultamento islâmicos, que enfatizam a importância de um enterro digno. Essa devolução faz parte da implementação do cessar-fogo, que inclui a libertação de cerca de 2.000 prisioneiros e detentos palestinos na segunda-feira – muitos deles acusados de envolvimento em atividades militantes, mas incluindo também menores e civis sem condenações formais, conforme documentado pela Anistia Internacional.

Equipes forenses ligadas ao Ministério da Saúde de Gaza, controlado por Hamas, realizaram exames iniciais nos corpos e relataram múltiplos sinais de maus-tratos, incluindo fraturas, marcas de queimaduras e indícios de execuções sumárias. Autoridades israelenses não comentaram imediatamente essas alegações, mas o IDF afirmou que os corpos foram tratados de acordo com protocolos humanitários durante a custódia. Espera-se que Israel transfira mais restos nos próximos dias, embora não tenha divulgado o número exato sob sua posse – estimativas da OCHA sugerem centenas de corpos recuperados durante operações militares em Gaza ao longo da guerra.

Não está claro se esses restos pertencem a palestinos que morreram em prisões israelenses, como as superlotadas de Ofer e Ketziot, ou foram exumados por tropas durante buscas por reféns em túmulos e escombros. Ao longo do conflito, o exército israelense conduziu dezenas de operações de exumação em Gaza e no Líbano, recuperando fragmentos de corpos de reféns em locais como túneis subterrâneos usados por Hamas. Críticos, incluindo a Human Rights Watch, questionam a legalidade dessas práticas sob o direito internacional, argumentando que elas podem violar convenções de Genebra sobre o tratamento de mortos em guerra.

Dificuldades na Identificação e o Sofrimento das Famílias em Gaza

Paralelamente, o Ministério da Saúde de Gaza divulgou na quarta-feira imagens e descrições de 32 corpos não identificados, uma medida desesperada para ajudar famílias a reconhecerem parentes desaparecidos em meio ao caos da guerra. Autoridades locais descreveram os restos como frequentemente em avançado estado de decomposição, com queimaduras graves, membros ou dentes faltantes, e cobertos por camadas de areia, poeira e detritos de construções destruídas – indícios de que foram recuperados de zonas de bombardeio intensivo.

As restrições impostas por Israel à importação de equipamentos para testes de DNA, citadas pela OMS em relatórios humanitários, obrigam os necrotérios de Gaza a recorrerem a métodos menos precisos, como análise de características físicas (altura, tatuagens, cicatrizes) e itens de vestimenta, como roupas ou joias pessoais. Isso resulta em um alto índice de erros, prolongando o luto das famílias palestinas, muitas das quais perderam múltiplos membros.

A equipe forense que recebeu os corpos no Hospital Nasser, em Khan Younis – uma das poucas instalações médicas ainda operacionais no sul de Gaza –, observou detalhes chocantes alguns chegavam ainda algemados com plásticos ou correntes, e exibiam marcas de violência física, como hematomas e ferimentos a bala. Sameh Hamad, membro de uma comissão local responsável pelo recebimento, compartilhou observações detalhadas com a Associated Press. “Alguns corpos vieram com mãos e pernas imobilizadas por algemas. Existem claros indícios de tortura e execuções”, relatou ele, estimando que a maioria pertencia a homens entre 25 e 70 anos. Muitos apresentavam faixas apertadas no pescoço, incluindo um caso com uma corda visivelmente usada para estrangulamento. A maioria vestia roupas civis comuns, como camisas e calças jeans, mas alguns usavam uniformes militares ou de militância, sugerindo perfis variados entre civis e combatentes.

Hamad destacou ainda que a Cruz Vermelha forneceu nomes e detalhes para apenas três dos falecidos, deixando centenas de famílias em um limbo emocional. Em Gaza, onde o sistema de registro civil foi destruído por ataques a infraestruturas, a identificação pode demorar meses, exacerbando o trauma coletivo em uma população já marcada por deslocamentos forçados e escassez de recursos.

Contexto Amplo da Guerra e Seus Impactos Humanitários Duradouros

Essa troca de corpos e prisioneiros ocorre no epicentro de uma guerra de dois anos, iniciada pelo ataque brutal de Hamas em 7 de outubro de 2023, que resultou na morte de cerca de 1.200 pessoas em Israel – um misto de civis em kibutzim, festivalgoers no sul e soldados em bases militares. O grupo militante, designado como terrorista por Israel, EUA e União Europeia, reivindicou o ataque como retaliação a ocupações e bloqueios, mas foi amplamente condenado por sua brutalidade, incluindo relatos de estupros e mutilações documentados pela ONU.

A resposta israelense, uma campanha militar em larga escala com bombardeios aéreos, incursões terrestres e bloqueio total, causou a morte de quase 68.000 palestinos em Gaza, segundo o Ministério da Saúde local – números validados por agências independentes como a OCHA, que também reportam mais de 150.000 feridos, 1,9 milhão de deslocados e uma infraestrutura destruída em 80%. A crise humanitária é aguda: fome afeta 96% da população, com relatos da OMS de surtos de doenças como cólera devido à falta de água potável e saneamento. Economistas do Banco Mundial estimam que a reconstrução de Gaza pode custar bilhões e levar décadas.

Especialistas em direitos humanos, como os da Anistia Internacional e Human Rights Watch, clamam por investigações imparciais sobre abusos cometidos por ambos os lados, incluindo o uso de fome como arma de guerra por Israel e os sequestros por Hamas. O acordo de cessar-fogo, embora frágil, oferece uma janela para alívio humanitário, com convoys de ajuda agora autorizados a entrar em Gaza. No entanto, a desconfiança mútua persiste, e famílias de reféns e vítimas palestinas aguardam não apenas o retorno de restos, mas justiça e paz duradoura em uma região marcada por ciclos de violência há décadas.