Preço do ouro cai mais que o esperado em mais de uma década com o arrefecimento da recuperação
Os preços do ouro registraram nesta semana sua queda mais dramática em um único dia em mais de uma década, enviando ondas de choque pelos mercados financeiros globais. A forte correção apagou bilhões em valor e deixou os investidores questionando a sustentabilidade da recente disparada recorde do metal precioso, impulsionada por tensões geopolíticas e expectativas de cortes nas taxas de juros pelos bancos centrais.
O ouro à vista atingiu o mínimo de US$ 4.090,97 por onça, uma queda de quase US$ 300 em relação ao recorde histórico de US$ 4.380,89 alcançado no dia anterior. Os futuros do ouro dos EUA caíram 5,4% em Nova York, sendo negociados em torno de US$ 4.100 por onça.
Queda Histórica
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Plunge histórico: O ouro à vista caiu até 4,2% em uma única sessão, marcando sua maior queda percentual diária desde agosto de 2011.
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Correção de preços: As cotações despencaram do recorde acima de US$ 2.450 por onça para menos de US$ 2.350, revertendo a maior parte dos ganhos de maio.
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Fatores principais: A venda em massa foi desencadeada por dados econômicos dos EUA mais fortes do que o esperado e sinais agressivos do Federal Reserve, reduzindo as esperanças de cortes iminentes nas taxas de juros.
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Pausa da China: A notícia de que o Banco Popular da China (PBOC) interrompeu sua sequência de 18 meses comprando ouro em maio assustou ainda mais o mercado, eliminando um dos pilares de sustentação da demanda.
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Impacto nos investidores: A queda repentina resultou em perdas significativas para investidores recentes e gerou incerteza entre consumidores e joalheiros, especialmente em grandes mercados como Índia e China.
O Que Aconteceu: Uma Tempestade Perfeita no Mercado de Ouro
A impressionante alta do ouro em 2024 chegou a um fim abrupto. Após atingir um recorde histórico acima de US$ 2.450 por onça troy em meados de maio, o preço caiu bruscamente. O principal catalisador dessa reversão foi a combinação de dados econômicos robustos dos EUA e uma mudança de sentimento em relação às políticas dos bancos centrais.
Em 7 de junho de 2024, o Bureau of Labor Statistics dos EUA informou que a economia americana criou 272.000 empregos em maio, superando as previsões. Esse relatório reduziu as chances de o Federal Reserve cortar juros em breve. Taxas mais altas fortalecem o dólar e aumentam o custo de oportunidade de manter ativos sem rendimento, como o ouro, tornando-o menos atraente.
Somando-se a isso, os dados da China mostraram que o PBOC interrompeu suas compras em maio, encerrando uma sequência de 18 meses de aumento nas reservas. A informação, confirmada pela Administração Estatal de Câmbio, removeu uma fonte crucial de demanda que havia sustentado a força do mercado.
O efeito combinado de um Fed mais agressivo e da retração de um grande comprador estatal criou uma tempestade perfeita, desencadeando uma venda massiva de traders especulativos e detentores de ETFs.
Os Números: Um Retrato Estatístico
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Pico e queda de preço: O ouro à vista atingiu US$ 2.454,20 por onça em 20 de maio de 2025. Até o fim da primeira semana de junho, caiu para US$ 2.286, uma correção de quase 7%.
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Demanda dos bancos centrais: O Conselho Mundial do Ouro informou que os bancos centrais adicionaram 290 toneladas líquidas às reservas no primeiro trimestre de 2025. No entanto, a pausa do PBOC rompeu essa tendência, mantendo suas reservas em 72,80 milhões de onças troy ao final de maio.
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Saídas de ETFs: Após a queda dos preços, fundos negociados em bolsa lastreados em ouro registraram grandes saídas, totalizando centenas de milhões de dólares só na primeira semana de junho.
Reações Oficiais e Análises de Especialistas
Analistas e autoridades reagiram rapidamente à dramática oscilação. Representantes do Federal Reserve mantiveram uma postura cautelosa, defendendo uma abordagem dependente dos dados. Eles afirmam que só considerarão cortes de juros após verem vários meses de desaceleração consistente da inflação para a meta de 2%.
Essa narrativa de “juros mais altos por mais tempo” é um forte obstáculo para o ouro.
Impacto no Mundo Real: De Investidores Globais a Joalheiros Locais
A volatilidade teve impacto em todos os níveis. Investidores institucionais e fundos de hedge com posições alavancadas sofreram grandes perdas. Já investidores de varejo que compraram perto do pico enfrentaram uma dura lição sobre os riscos de mercado.
Em Tanti Bazaar, em Daca, o sentimento mudou. “Quando o preço estava subindo tão rápido, os clientes hesitavam em comprar, esperando uma correção”, disse Aminul Islam, ourives de terceira geração. “Agora que o preço caiu, alguns voltaram, mas muitos ainda esperam novas quedas. Essa volatilidade cria incerteza para nossos negócios, especialmente na hora de repor estoque.”
Na Índia, a queda antes da temporada de casamentos e festivais pode estimular a demanda física, embora a oscilação mantenha compradores cautelosos.
Próximos Passos: O Que Observar
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Comentários dos bancos centrais: As atenções se voltam para as próximas reuniões do Federal Reserve e declarações do Banco Central Europeu. Qualquer sinal de flexibilidade pode reacender a alta do ouro.
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Dados de inflação: Relatórios de CPI e PPI dos grandes mercados serão cruciais. Uma inflação mais branda pode abrir caminho para cortes de juros antecipados.
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Desenvolvimentos geopolíticos: Escalada de conflitos no Oriente Médio ou na Europa Oriental pode aumentar a busca por ativos de refúgio como o ouro.
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Próximos passos da China: O mercado observará atentamente se a pausa do PBOC foi pontual ou o início de uma tendência. A retomada das compras seria altamente positiva para o ouro.
Conclusão: Um Mercado em Encruzilhada
O mercado de ouro está em um ponto crítico. A recente queda corrigiu alguns excessos especulativos, mas os fatores fundamentais que sustentaram sua alta permanecem: instabilidade geopolítica, altos níveis de dívida soberana e a eventual reversão do ciclo de juros globais.
No curto prazo, entretanto, o mercado está à mercê das políticas dos bancos centrais e dos indicadores macroeconômicos, prometendo mais volatilidade e incerteza tanto para investidores quanto para consumidores. A era dos ganhos fáceis parece ter chegado ao fim, dando lugar a um cenário mais complexo e imprevisível.
