Especialistas explicam por que Trump é improvável de ganhar o Prêmio Nobel da Paz este ano
A candidatura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao Prêmio Nobel da Paz tem atraído ainda mais atenção para o jogo anual de especulações sobre quem será o próximo vencedor dessa honraria tão prestigiada. Observadores de longa data do Nobel, como historiadores e analistas de relações internacionais, afirmam que as perspectivas de Trump continuam bastante remotas, mesmo com uma série de nomeações de alto perfil e intervenções em política externa das quais ele pessoalmente se atribui o crédito principal.
De acordo com especialistas, o Comitê Norueguês do Nobel, responsável pela seleção desde 1901 conforme a vontade de Alfred Nobel, prioriza a durabilidade da paz, a promoção da fraternidade entre nações e o trabalho discreto de instituições que contribuem para esses objetivos de forma sustentável. O histórico de Trump pode até jogar contra ele, apontam esses analistas, citando seu aparente desdém por instituições multilaterais, como a ONU e a OTAN, e sua postura de descrença nas preocupações globais com as mudanças climáticas, que muitos veem como uma ameaça existencial à paz mundial. Por exemplo, prêmios anteriores, como o concedido em 2007 a Al Gore e ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), destacam o foco do comitê em questões ambientais como pilares da estabilidade global, alinhando-se aos critérios originais de Nobel para reduzir exércitos permanentes e promover congressos de paz. Fontes confiáveis, incluindo o site oficial do Nobel Prize (nobelprize.org), enfatizam que o prêmio busca honrar contribuições que avancem a “fraternidade entre nações” de maneira comprovada e de longo prazo, não ações isoladas ou controversas.
Apesar disso, o líder americano tem perseguido os holofotes do Nobel de forma insistente desde seu primeiro mandato, entre 2017 e 2021, e continuou a fazê-lo em seu segundo período iniciado em janeiro de 2025. Recentemente, no final do mês passado, durante uma assembleia da ONU em Nova York, Trump declarou abertamente a delegados de vários países que “todo mundo diz que eu deveria ganhar o Prêmio Nobel da Paz”, uma declaração que foi amplamente reportada pela Associated Press e ecoou em mídias internacionais como a Reuters. Essa busca por reconhecimento não é nova; Trump já havia expressado frustração em 2018 e 2019 por não ter recebido o prêmio, especialmente após o acordo nuclear com a Coreia do Norte, que ele considera um marco diplomático. Relatos de fontes como o Council on Foreign Relations indicam que tais declarações públicas podem, na verdade, distanciar o comitê, que valoriza discrição e independência em suas deliberações.
Campanhas públicas de lobby, mas decisão privada do comitê
Uma regra fundamental do processo é que ninguém pode se nomear para o prêmio, o que torna as indicações de terceiros – qualificadas pessoas como parlamentares, acadêmicos e líderes de organizações – essenciais para qualquer candidatura. As fanfarronices de Trump e suas nomeações anteriores de destaque o posicionam como o nome mais chamativo nas listas de favoritos das casas de apostas, como a Betfair e a Ladbrokes, onde ele aparece com odds longas de cerca de 50/1 para o prêmio de 2025, atrás de candidatos como organizações humanitárias e ativistas climáticos. No entanto, permanece incerto se o nome de Trump é sequer mencionado nas conversas privadas do comitê de cinco membros, que é eleito pelo Storting (parlamento norueguês) para mandatos de seis anos e reflete o equilíbrio partidário do país, com um secretário do Instituto Norueguês do Nobel auxiliando nas deliberações sem direito a voto.
Desde 2018, Trump acumulou várias indicações de cidadãos americanos qualificados, assim como de políticos estrangeiros, incluindo de Filipinas e de aliados no Oriente Médio, conforme registros confidenciais do Nobel – que só são divulgados publicamente 50 anos após o fato para preservar a integridade do processo. Em dezembro de 2024, a deputada republicana Claudia Tenney, de Nova York, oficializou uma indicação por meio de seu escritório, creditando a Trump o papel central na mediação dos Acordos de Abraão, assinados em 2020 na Casa Branca, que normalizaram relações diplomáticas entre Israel e quatro nações árabes: Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão (parcialmente) e Marrocos. O Departamento de Estado dos EUA, em relatórios oficiais de 2025, e o Ministério das Relações Exteriores de Israel afirmam que esses acordos representaram um paradigma de mudança na diplomacia do Oriente Médio, criando novas oportunidades de comércio, turismo e cooperação militar, com bilhões de dólares em trocas comerciais registradas desde então, mesmo após os conflitos em Gaza a partir de 2023. No entanto, nomeações mais recentes, como as do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e do governo paquistanês, foram submetidas após o prazo estrito de 31 de janeiro de 2025 para o prêmio deste ano, e portanto não são válidas.
Trump tem repetido incansavelmente que “merece” o prêmio e alega ter “encerrado sete guerras” durante seus mandatos, uma afirmação que ele reiterou em discursos recentes. Na terça-feira, 30 de setembro de 2025, durante uma reunião com líderes militares na Base do Corpo de Fuzileiros Navais Quantico, na Virgínia, ele insinuou a possibilidade de concluir uma oitava guerra se Israel e o Hamas aceitarem seu plano de paz proposto para encerrar o conflito em Gaza, que já dura quase dois anos e resultou em milhares de vítimas civis. “Ninguém nunca fez isso”, disse Trump aos presentes, adicionando com tom de ironia: “Você vai ganhar o Nobel? Absolutamente não. Eles vão dar para algum cara que não fez porcaria nenhuma.” A Casa Branca confirmou o evento em um comunicado oficial, mas analistas do Council on Foreign Relations e do Carnegie Endowment questionam a precisão dessas alegações, esclarecendo que ações como o Acordo do Talibã em Doha (2020) e os Acordos de Abraão foram avanços parciais, não encerramentos totais de guerras, e que muitos conflitos, como o no Afeganistão, reacesceram sob administrações subsequentes. Além disso, para 2025, o processo registrou 338 candidatos no total, sendo 244 indivíduos e 94 organizações, incluindo agências da ONU como a UNHCR e a UNICEF, que lidam com crises humanitárias agravadas por cortes em auxílios americanos durante o primeiro mandato de Trump.
Esforços de paz sustentados priorizados sobre vitórias rápidas
Veteranos do Nobel, incluindo historiadores como Asle Sveen e pesquisadores do Instituto de Pesquisa de Paz de Oslo (PRIO), enfatizam que o comitê privilegia iniciativas multilaterais e de longo prazo em detrimento de vitórias diplomáticas rápidas ou unilaterais. Theo Zenou, historiador e fellow de pesquisa na Henry Jackson Society, um think tank britânico especializado em política externa e segurança global, argumenta que as contribuições de Trump, embora notáveis em alguns aspectos, ainda não demonstraram impacto duradouro em escala global. “Há uma grande diferença entre parar a luta no curto prazo e resolver as causas raízes do conflito, como desigualdades econômicas, disputas territoriais e extremismos ideológicos”, explicou Zenou em uma entrevista recente à PBS NewsHour, destacando exemplos como os Acordos de Abraão, que promoveram prosperidade econômica – com centenas de milhares de turistas árabes visitando Israel e vice-versa, e trocas comerciais ultrapassando bilhões de dólares – mas enfrentam desafios em meio às tensões regionais persistentes, incluindo a guerra em Gaza.
Zenou também ressalta a postura de Trump sobre as mudanças climáticas como um fator desqualificante, já que o comitê e a comunidade internacional veem o aquecimento global como o maior desafio à paz planetária a longo prazo, afetando migrações forçadas, escassez de recursos e conflitos armados. “Eu não acho que eles concederiam o prêmio mais prestigioso do mundo a alguém que não acredita em mudanças climáticas e que retirou os EUA do Acordo de Paris em 2017”, afirmou Zenou. “Ao olhar para vencedores anteriores que foram construtores de pontes, incorporaram cooperação internacional e reconciliação – pense em figuras como Nelson Mandela em 1993 ou a ONU em 2001 – essas não são palavras que associamos a Donald Trump, cuja abordagem muitas vezes prioriza o unilateralismo e o confronto.” De fato, desde 1901, o prêmio foi concedido 105 vezes a indivíduos e organizações, com 19 mulheres entre os laureados, e exemplos como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (três vezes premiado) ilustram o foco em esforços humanitários sustentados, não em figuras políticas polarizadoras. Analistas do PRIO e da Carnegie Endowment notam que, cinco anos após os Acordos de Abraão, eles sobreviveram à guerra em Gaza, mas sua expansão – com interesses em incluir Arábia Saudita, Síria e Líbano sob a administração Trump em 2025 – depende de liderança americana contínua e resolução de conflitos pendentes, como o palestino-israelense.
Evitando pressão política
O Comitê Norueguês do Nobel enfrentou críticas intensas em 2009 ao conceder o prêmio ao então presidente Barack Obama apenas nove meses após sua posse, uma decisão vista como prematura e baseada em aspirações por sua agenda de diplomacia multilateral e fechamento de Guantánamo, mas sem conquistas concretas na época. Reportagens da época, como as do The New York Times e comunicados do próprio comitê, revelaram que a escolha gerou debates globais sobre a credibilidade do prêmio, com muitos argumentando que Obama não havia tido tempo suficiente para impactos dignos de reconhecimento. Essa controvérsia levou o comitê a adotar uma postura ainda mais cautelosa em anos subsequentes, priorizando evidências de resultados tangíveis e evitando percepções de viés político.
A franqueza de Trump sobre sua possível vitória pode, paradoxalmente, prejudicá-lo: o comitê não deseja ser acusado de ceder a pressões políticas ou lobbies públicos, como alertou Nina Græger, diretora do Instituto de Pesquisa de Paz de Oslo (PRIO), uma das principais instituições em estudos de paz baseada em evidências científicas. Græger, com doutorado em ciência política e vasta experiência em análise de prêmios internacionais, descreve as chances de Trump como “uma aposta longa e improvável”. “Sua retórica não aponta para uma perspectiva pacífica; ao contrário, ela frequentemente enfatiza força militar e negociações bilaterais em detrimento de alianças globais”, disse ela em comentários à Reuters, ecoando opiniões de outros experts como Sveen, que afirma categoricamente: “Ele não tem chance de ganhar o Prêmio da Paz de jeito nenhum”, citando o apoio de Trump a Israel na guerra de Gaza e suas aproximações com líderes como Vladimir Putin como desalinhados com os valores do Nobel. O comitê, composto por membros frequentemente ex-políticos ou acadêmicos indicados por partidos noruegueses para refletir o equilíbrio parlamentar, opera com total autonomia, preparando relatórios detalhados e consultando especialistas globais antes da decisão final, sempre em segredo para evitar influências externas. Essa independência é crucial para manter a credibilidade do prêmio, especialmente em um ano com candidatos fortes como organizações humanitárias lidando com crises em Sudão, Ucrânia e no Oriente Médio.
Informações da PBS News e AFR.
