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Israel continua a violar a trégua mortal em Gaza enquanto os EUA buscam fortalecer o acordo

Israel tem mantido uma série de ataques aéreos e disparos em Gaza, o que está gerando sérias preocupações quanto ao futuro de seu frágil acordo de cessar-fogo com o Hamas. Esses incidentes ocorrem em um momento delicado, logo após a entrada em vigor de um cessar-fogo negociado pelos Estados Unidos, e destacam as tensões persistentes na região. Enviados americanos estão intensificando esforços diplomáticos para restaurar o acordo e evitar uma escalada que poderia reabrir as hostilidades em larga escala. De acordo com relatórios detalhados da ONU e de organizações humanitárias como a Cruz Vermelha Internacional, essas violações não apenas ameaçam a estabilidade imediata, mas também complicam os esforços para fornecer ajuda essencial à população civil de Gaza, que já sofre com meses de conflito intenso e destruição generalizada.

A Agência de Defesa Civil Palestina, responsável por resgates e respostas a emergências no enclave, relatou que quatro civis perderam a vida em dois ataques separados. Esses incidentes aconteceram quando as vítimas foram atingidas por tiros israelenses enquanto tentavam retornar e inspecionar suas casas na área de al-Shaaf, localizada a leste do bairro Tuffah, na parte oriental de Gaza City. Essa região, marcada por escombros e ruínas de prédios bombardeados, tem sido um ponto focal de tensão devido à proximidade com linhas de frente anteriores. Autoridades palestinas enfatizam que essas mortes ocorreram em contextos que sugerem retaliações preventivas, contribuindo para um ciclo de violência que já ceifou inúmeras vidas civis desde o início do conflito.

Ataques Israelenses e Respostas Militares

O exército israelense (IDF, na sigla em inglês) justificou os disparos afirmando que eles foram direcionados a militantes que cruzaram a chamada “linha amarela” de demarcação e se aproximaram de posições de tropas israelenses no bairro Shujayea, que fica adjacente a Tuffah. Segundo o IDF, esses indivíduos representavam uma “ameaça iminente” aos soldados, o que exigiu uma resposta imediata para proteger as forças. Essa linha de demarcação foi estabelecida como parte de um mapa oficial compartilhado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em 4 de outubro de 2025, definindo os limites geográficos onde as tropas israelenses recuaram e agora permanecem estacionadas sob os termos do cessar-fogo com o Hamas. O mapa, divulgado publicamente para transparência, visa delimitar zonas de controle para evitar confrontos acidentais, mas sua implementação prática tem sido desafiadora no terreno devastado de Gaza.

Residentes de Gaza City, muitos dos quais foram deslocados múltiplas vezes durante o conflito, relatam uma profunda confusão sobre a localização exata dessa linha amarela, principalmente porque não há marcações físicas visíveis no solo – como barreiras ou sinalizações – para guiá-los. “Toda a área está em ruínas completas. Vimos os mapas nos noticiários e nas redes sociais, mas no meio dos destroços e da poeira, é impossível dizer onde exatamente ficam essas linhas”, descreveu Samir, um morador de 50 anos de Tuffah, no leste da cidade, em entrevista à Al Jazeera. Essa ambiguidade geográfica, agravada pela destruição de infraestrutura e pela falta de eletricidade em muitas áreas, tem levado a incidentes inadvertidos, onde civis ou grupos armados acabam cruzando limites sem intenção, resultando em confrontos letais. Relatórios da BBC e da Reuters corroboram esses relatos, destacando como a ausência de uma fronteira clara no terreno real alimenta o medo e a desconfiança entre as partes envolvidas.

Desde que o frágil cessar-fogo, mediado pelos EUA, entrou em vigor em 10 de outubro de 2025, uma série de episódios de violência irrompeu, levando à morte de pelo menos 97 palestinos, conforme dados oficiais do Ministério da Saúde de Gaza e monitoramentos da ONU. Esses números incluem civis, combatentes e vítimas colaterais de ataques, e são atualizados diariamente por agências internacionais para garantir precisão. A ONU, por meio de seu Escritório para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), alerta que esses incidentes isolados podem rapidamente evoluir para uma quebra total do acordo, prolongando o sofrimento humanitário em uma região onde mais de 2 milhões de pessoas dependem de ajuda externa para sobreviver.

Violações Claras e Acusações Mútuas

Diante do crescente número de vítimas, tanto Israel quanto o Hamas têm se acusado reciprocamente de violar os termos específicos do cessar-fogo, que foi assinado em 10 de outubro de 2025 após intensas negociações internacionais. Os ataques aéreos israelenses realizados no domingo resultaram na morte de 42 pessoas, incluindo várias crianças, segundo autoridades de saúde locais em Gaza, que identificaram as vítimas por meio de exames médicos e registros familiares. Israel defendeu os bombardeios como uma medida de retaliação necessária contra uma suposta violação cometida por combatentes do Hamas, que teriam atirado e matado dois soldados israelenses na cidade de Rafah, no sul de Gaza. O IDF forneceu detalhes operacionais, afirmando que os alvos foram selecionados com base em inteligência que indicava movimentações hostis, embora isso tenha sido contestado por observadores independentes.

O Hamas, por sua vez, negou categoricamente qualquer envolvimento no incidente de Rafah, declarando que o grupo não mantém contato com suas unidades remanescentes em áreas sob controle israelense e que “não assume responsabilidade por qualquer incidente” ocorrendo nessas zonas. Um alto oficial do Hamas foi além, acusando Israel de fabricar “pretextos falsos” para justificar uma retomada da guerra e minar o cessar-fogo. Essas alegações foram ecoadas em comunicados oficiais do grupo e analisadas por veículos como a Reuters, que cobrem as negociações em andamento e verificam declarações de ambas as partes por meio de fontes múltiplas, incluindo testemunhas oculares e imagens de satélite.

Além disso, o Hamas, que já libertou 20 reféns israelenses vivos como parte do acordo inicial, está trabalhando ativamente para completar a entrega dos corpos restantes de reféns mantidos em Gaza. O grupo citou “grandes desafios logísticos e de segurança devido à destruição extensa” no enclave, onde estradas destruídas, edifícios colapsados e riscos de fogo cruzado complicam as operações de transferência. Na segunda-feira, 20 de outubro de 2025, a Cruz Vermelha Internacional recebeu o corpo de um 13º refém falecido das mãos do Hamas e o transferiu imediatamente para o exército israelense, conforme confirmado pelo gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em um comunicado oficial. Essa entrega faz parte de um cronograma estipulado no cessar-fogo, monitorado por mediadores internacionais para garantir conformidade.

No domingo, Israel emitiu uma ameaça explícita de suspender todos os envios de ajuda humanitária para Gaza, citando violações como justificativa, mas recuou horas depois, anunciando a retomada da aplicação rigorosa do cessar-fogo. O porta-voz da ONU, Stephane Dujarric, confirmou que as entregas de suprimentos humanitários – incluindo alimentos, medicamentos e água potável – foram reiniciadas através de passagens como Kerem Shalom e Erez, embora ele não tenha especificado os volumes exatos devido a restrições logísticas em curso. No entanto, o correspondente da Al Jazeera no terreno, Tareq Abu Azzoum, relatou na segunda-feira que, apesar das promessas, Israel continua bloqueando a entrada de comboios de ajuda, com vários checkpoints militares paralisando o avanço de caminhões carregados com suprimentos essenciais, como tendas, geradores e kits médicos. “Esses bloqueios estão exacerbando a crise humanitária, deixando milhares sem acesso a itens vitais”, observou Abu Azzoum, baseando-se em relatos de motoristas e coordenadores de ONGs.

Abu Azzoum também documentou ataques do exército israelense nas partes orientais de Khan Younis na segunda-feira, que envolveram drones e artilharia, desencadeando pânico generalizado entre os palestinos que temem uma ruptura iminente do cessar-fogo. Essa cidade no sul de Gaza, já duramente atingida por bombardeios anteriores, abriga campos de refugiados densamente povoados, tornando qualquer violência particularmente devastadora. Philippe Lazzarini, comissário-geral da UNRWA (a agência da ONU para refugiados palestinos), emitiu uma declaração forte em uma postagem no X (antigo Twitter): “O frágil cessar-fogo em #Gaza deve ser mantido a todo custo”, exigindo investigações urgentes e imparciais sobre as “violações flagrantes” do direito internacional humanitário. A UNRWA, que opera escolas e clínicas em Gaza, baseia suas avaliações em dados de campo coletados por sua equipe de mais de 13 mil funcionários palestinos, e sua posição é reforçada por relatórios da Human Rights Watch, que documentam padrões recorrentes de violações em conflitos assimétricos na região, incluindo o uso desproporcional de força.

Esforços de Resgate e Diplomacia Americana

No meio dessa violência contínua e das acusações cruzadas, dois enviados especiais do presidente Trump viajaram a Israel na segunda-feira, 20 de outubro de 2025, com o objetivo explícito de reforçar e estabilizar o acordo de cessar-fogo. O enviado especial Steve Witkoff, um negociador experiente em assuntos do Oriente Médio, e Jared Kushner, genro de Trump e figura chave em acordos anteriores como os Acordos de Abraão, reuniram-se com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em Jerusalém. De acordo com um porta-voz do governo israelense, as discussões cobriram tópicos como a clarificação de linhas de demarcação, o calendário para libertações adicionais de reféns e mecanismos para prevenir incidentes fronteiriços. Essas reuniões fazem parte de uma estratégia diplomática mais ampla dos EUA para mediar o conflito, alinhada com a política externa de Trump de priorizar negociações diretas e incentivos econômicos para a paz.

Na terça-feira, 21 de outubro de 2025, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, e a segunda-dama, Usha Vance, estão agendados para uma visita oficial a Israel, onde também se encontrarão com Netanyahu e possivelmente com líderes da oposição. Essa viagem de alto nível sinaliza o compromisso contínuo da administração Trump em supervisionar o processo, com foco em construir confiança entre as partes e envolver aliados regionais. Vance, conhecido por sua retórica firme em questões de segurança, deve enfatizar a importância de aderir ao cessar-fogo para abrir caminho para reconstrução em Gaza.

A próxima fase do cessar-fogo, conforme delineado no plano americano, deve se concentrar em etapas críticas como o desarmamento gradual do Hamas, a retirada israelense de áreas adicionais que ainda controla em Gaza – incluindo partes de Rafah e Khan Younis – e a estabelecimento de uma governança futura para o território devastado. Essa governança seria supervisionada por um “conselho de paz” apoiado internacionalmente, possivelmente envolvendo nações como Egito, Jordânia e potências ocidentais, com o objetivo de promover estabilidade e desenvolvimento econômico. No entanto, detalhes sobre a composição desse conselho permanecem em discussão, com relatórios do Council on Foreign Relations destacando os desafios de implementar tal estrutura em um contexto de desconfiança mútua.

Paralelamente, o Egito sediou conversas importantes no Cairo na segunda-feira com Khalil al-Hayya, um alto oficial do Hamas responsável por relações externas, para explorar maneiras de avançar na implementação do cessar-fogo. Em um comunicado oficial, o Hamas descreveu as reuniões como “produtivas”, focando em questões logísticas como a distribuição de ajuda e a verificação de zonas seguras. O Egito, como mediador histórico no conflito Israel-Palestina, tem desempenhado um papel pivotal, hospedando múltiplas rodadas de negociações desde o início da ofensiva em Gaza, e seus esforços são elogiados pela Liga Árabe por promoverem uma abordagem equilibrada.

O Hamas e facções aliadas, como a Jihad Islâmica Palestina, rejeitam veementemente qualquer forma de administração estrangeira de Gaza, tal como proposto no plano de Trump, argumentando que isso violaria a soberania palestina. Eles também resistem a apelos para depor completamente as armas, insistindo que o desarmamento só ocorrerá em troca de garantias de segurança e um estado palestino viável. Essa posição endurecida pode complicar significativamente a execução do acordo, como analisado em estudos do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), que examinam as dinâmicas políticas e militares no Oriente Médio e preveem obstáculos prolongados se não houver concessões mútuas.

Questionado diretamente sobre como manter o cessar-fogo entre Israel e o Hamas, o presidente Trump atribuiu as violações recentes ao Hamas, alegando que o grupo está lidando com “alguma rebelião interna” em suas fileiras, que os líderes precisam resolver de forma decisiva. Em declarações feitas durante uma coletiva de imprensa na Casa Branca, Trump afirmou: “Eles têm que se comportar direitinho, e se não se comportarem, serão erradicados completamente”. No entanto, ele foi enfático ao insistir que qualquer ação militar subsequente não envolveria tropas americanas no terreno, alinhando-se à doutrina de Trump de evitar engajamentos diretos dos EUA em conflitos estrangeiros. Essas palavras refletem uma abordagem dura em relação ao Hamas, mas também um otimismo cauteloso sobre o potencial do acordo para trazer paz duradoura.

Desde o início do cessar-fogo, forças de segurança do Hamas têm retornado às ruas de Gaza de maneira visível, patrulhando bairros e confrontando outros grupos armados que surgiram durante o caos do conflito. Esses confrontos resultaram na eliminação de supostos membros de gangues envolvidas em saques e violência contra civis. Trump comentou sobre isso na semana passada, dizendo que o Hamas havia “eliminado alguns gangues que eram muito ruins; gangues muito, muito ruins, que causavam problemas graves”. “E isso não me incomodou muito, para ser honesto com vocês. Está tudo bem, desde que ajude a estabilizar a área”, acrescentou ele, em uma entrevista à Fox News. Essa visão pragmática de Trump sugere uma tolerância seletiva a ações internas do Hamas, desde que contribuam para a ordem geral e o cumprimento do cessar-fogo.

Esses desenvolvimentos coletivos ilustram a extrema fragilidade do acordo atual, com mediadores internacionais – incluindo os Estados Unidos, o Egito e a ONU – trabalhando incansavelmente para prevenir uma retomada total das hostilidades que poderia resultar em mais milhares de mortes e uma crise humanitária ainda pior. Relatórios recentes da ONU enfatizam a necessidade urgente de um fluxo contínuo de ajuda humanitária para mitigar o sofrimento da população civil em Gaza, onde a fome, doenças e falta de abrigo afetam diariamente dezenas de milhares de famílias. Organizações como a Médicos Sem Fronteiras relatam um colapso iminente do sistema de saúde, reforçando a importância de que todas as partes priorizem a diplomacia sobre a confrontação.

A informação é coletada da BBC e da Al Jazeera.