Acusando repressão, opositores protestam contra Erdoğan
Milhares de pessoas se reuniram na capital turca, Ancara, no domingo, 14 de setembro de 2025, para protestar contra o presidente Recep Tayyip Erdogan, acusando o governo de usar o sistema judicial para reprimir a oposição política. O ato, organizado pelo principal partido opositor, o Partido Republicano do Povo (CHP), ocorreu um dia antes de uma audiência judicial decisiva que poderia alterar a liderança do partido e influenciar o futuro político do país, em meio a uma onda de detenções e processos legais contra opositores que se intensificou nos últimos meses.
Os manifestantes, estimados em cerca de 50 mil pela organização do evento, lotaram a praça Tandogan, um local simbólico na capital, carregando bandeiras nacionais turcas, camisetas com a imagem de Mustafa Kemal Atatürk – o fundador da República da Turquia – e faixas com slogans pedindo a renúncia de Erdogan. Imagens ao vivo transmitidas por veículos de imprensa mostraram a multidão entoando frases como “Erdogan, ditador!” e “Governo, renuncie!”, refletindo uma insatisfação crescente com o que é visto como uma erosão das instituições democráticas. Esse protesto faz parte de uma série de manifestações que começaram em março de 2025, após a prisão de figuras chave da oposição, e que agora se concentram em questões judiciais específicas contra o CHP.
Contexto Histórico dos Protestos e a Crise Política Atual
Os protestos de 2025 na Turquia representam a maior onda de oposição pública desde as manifestações no Parque Gezi em 2013, reunindo uma ampla coalizão de cidadãos de diferentes origens ideológicas, incluindo esquerdistas, nacionalistas e secularistas, unidos por símbolos republicanos como Atatürk. Eles surgiram inicialmente em março de 2025, após a detenção e prisão do prefeito de Istambul, Ekrem İmamoğlu, acusado de corrupção e supostas ligações com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), uma organização considerada terrorista pela Turquia e seus aliados ocidentais. Essa prisão desencadeou manifestações em massa em cidades como Istambul, Ancara e Izmir, com centenas de milhares de pessoas nas ruas, resultando em confrontos com a polícia, proibições de reuniões públicas e uma queda acentuada no valor da lira turca, que desvalorizou 16,3% nos dias seguintes.
No contexto mais amplo, o CHP, fundado por Atatürk em 1923, é o partido político mais antigo da Turquia e defende princípios como republicanismo, nacionalismo, secularismo e reformismo. Ele tem sido um dos principais opositores ao Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), liderado por Erdogan, que governa o país desde 2003. Nas eleições municipais de 2019 e 2024, o CHP obteve vitórias significativas, conquistando o controle de grandes cidades como Istambul e Ancara, o que representou um revés para Erdogan. Analistas apontam que, desde então, o governo intensificou investigações e processos judiciais contra membros do CHP, incluindo prefeitos, vereadores e ativistas, sob alegações de corrupção, irregularidades em licitações e conexões com grupos extremistas. Esses ações são descritas pela oposição como tentativas de “golpe judicial” para enfraquecer rivais potenciais nas eleições presidenciais de 2028.
A crise econômica agravou a situação: com inflação alta, desemprego e instabilidade cambial, os protestos ganharam apoio de estudantes, trabalhadores e profissionais liberais, que veem as ações do governo como uma ameaça à democracia e à estabilidade financeira. Em março, por exemplo, universidades como a de Istambul revogaram títulos acadêmicos de opositores, o que poderia desqualificá-los para cargos públicos, adicionando mais combustível às manifestações.
Audiência Judicial sobre o Congresso do CHP e Suas Implicações
Nesta segunda-feira, 15 de setembro de 2025, um tribunal em Ancara deve decidir sobre a validade do congresso interno do CHP realizado em novembro de 2023, onde Özgür Özel foi eleito líder do partido. A ação judicial alega irregularidades como manipulação de votos e violações de regras partidárias, e, se o congresso for anulado, isso poderia invalidar toda a estrutura de liderança atual, forçando novas eleições internas e potencialmente fragmentando o partido. Especialistas alertam que o veredicto não só afetaria a coesão da oposição, mas também poderia impactar os mercados financeiros, com possíveis flutuações na lira turca e nos índices da Bolsa de Istambul, semelhantes às vistas em março, quando a prisão de İmamoğlu causou uma desvalorização cambial imediata.
O caso é parte de uma série de processos judiciais contra o CHP nos últimos anos. Por exemplo, na semana anterior, um tribunal ordenou a substituição do chefe provincial do CHP em Istambul, levando a confrontos entre apoiadores e polícia fora da sede do partido, com uso de spray de pimenta e detenções. O líder Özel rejeitou essa decisão como “nula e sem efeito”, argumentando que se trata de interferência estatal para dividir a oposição. Se o tribunal adiar a decisão – o que é possível, como ocorreu em casos semelhantes –, isso poderia prolongar a incerteza política, mas também dar tempo para mais mobilizações.
Analistas internacionais, como os da Reuters e da DW, observam que esses processos ocorrem em um momento em que o CHP vem subindo nas pesquisas de opinião, especialmente após as vitórias eleitorais de 2024, o que representa uma ameaça real ao domínio de Erdogan. Uma invalidação do congresso poderia, inclusive, afetar a capacidade do partido de se preparar para as eleições de 2028, potencialmente beneficiando o AKP ao enfraquecer a oposição unificada.
Discurso de Özgür Özel e Acusações de Repressão Governamental
No protesto de domingo, Özgür Özel, líder do CHP, fez um discurso inflamado para a multidão, acusando o governo de Erdogan de minar as normas democráticas para se perpetuar no poder. Ele descreveu as ações judiciais como um “golpe contra o futuro presidente e o futuro governo”, afirmando que as acusações são falsas e motivadas politicamente. “Este governo não quer democracia. Eles sabem que não podem vencer eleições em condições democráticas. Não querem justiça, porque sabem que, com justiça, não poderão encobrir seus crimes”, declarou Özel, ecoando críticas de que o judiciário está sendo usado como ferramenta política.
Especial enfatizou que a repressão se intensificou após as vitórias da oposição nas eleições locais de 2024, quando o CHP assumiu o controle de municípios chave. Ele pediu eleições nacionais antecipadas, argumentando que o povo turco merece uma chance de votar em um sistema justo. “Vamos resistir, resistir, resistir”, repetiu ele, incentivando a multidão a continuar os protestos pacíficos apesar das restrições governamentais. Relatórios indicam que, no último ano, mais de 500 membros do CHP foram detidos em municípios controlados pelo partido, incluindo 17 prefeitos, sob alegações de corrupção e terrorismo. Além disso, centenas permanecem presos em investigações amplas, com o governo negando qualquer motivação política e afirmando a independência do judiciário.
Essas detenções incluem jornalistas, empresários e ativistas, com mais de 1.900 prisões desde março de 2025, segundo o Ministério do Interior turco. Organizações de direitos humanos, como a Anistia Internacional, criticam o uso excessivo de força pela polícia, incluindo gás lacrimogêneo, balas de borracha e canhões de água, em manifestações que, em sua maioria, foram pacíficas. Em março, por exemplo, proibições de reuniões públicas em Istambul duraram quatro dias, com bloqueios de estradas e censura em redes sociais, mas os protestos continuaram, com milhões assistindo transmissões ao vivo pelas contas de İmamoğlu e do CHP.
Carta de Ekrem İmamoğlu Lida no Protesto e Seu Impacto
Um dos pontos altos do ato foi a leitura de uma carta escrita por Ekrem İmamoğlu diretamente da prisão, onde ele está detido desde 19 de março de 2025. İmamoğlu, prefeito de Istambul e visto como o principal rival de Erdogan para as eleições de 2028, nega as acusações de corrupção, manipulação de licitações e ligações com o PKK, classificando-as como fabricadas para removê-lo da cena política. Na carta, ele escreveu: “A era do ‘eu’ vai acabar neste país, e a era do ‘nós’ vai começar. Um vai perder, e todos vão ganhar”. Ele acusou o governo de abusar do sistema judicial para silenciar opositores e minar a democracia, afirmando que as ações visam pré-determinar resultados eleitorais.
A multidão respondeu com aplausos entusiasmados e gritos de “Presidente İmamoğlu”, destacando seu status como figura central da oposição. İmamoğlu, de 54 anos, ganhou proeminência ao derrotar aliados de Erdogan nas eleições municipais de 2019 e 2024, conquistando Istambul – a maior cidade da Turquia e um reduto histórico do AKP. Sua prisão em março levou a protestos massivos, com centenas de milhares nas ruas, incluindo manifestações em distritos como Saraçhane, Beşiktaş e Kadıköy, onde policiais usaram táticas de dispersão violenta. Apesar das detenções – incluindo 343 em uma única noite em março –, os protestos persistiram, com participação de estudantes universitários e sindicatos, que veem İmamoğlu como símbolo de resistência democrática.
A equipe legal de İmamoğlu apelou da decisão de prisão, argumentando falta de evidências e motivação política. Em março, o tribunal retirou as acusações de terrorismo, focando em corrupção, mas manteve a detenção pendente de julgamento. Isso evitou a nomeação de um administrador estatal para Istambul, mas não diminuiu a tensão, com protestos se espalhando para outras cidades e até para comunidades turcas no exterior, como em Valletta, Malta.
Contexto de Repressão, Impactos Econômicos e Perspectivas Futuras
A repressão governamental inclui não só detenções, mas também censura midiática: em março, a autoridade reguladora de radiodifusão (RTÜK) ameaçou suspender canais de TV que cobrissem os protestos, levando alguns a interromperem transmissões ao vivo. Milhões migraram para redes sociais, com lives do CHP alcançando recordes de audiência. Boicotes a marcas ligadas ao AKP também foram promovidos, ampliando o impacto econômico das manifestações.
Economicamente, os protestos agravaram a crise: a lira turca sofreu quedas significativas, e ativos financeiros foram afetados pela instabilidade. Erdogan acusa os manifestantes de tentar desestabilizar o país, enquanto a oposição argumenta que as ações judiciais são uma forma de autoritarismo para consolidar poder. Com o tribunal possivelmente adiando a decisão sobre o CHP, analistas preveem mais protestos, potencialmente escalando para uma crise maior se o veredicto for contra a oposição.
Esses eventos destacam uma divisão profunda na sociedade turca, com os protestos servindo como plataforma para demandas por justiça, direitos e reformas democráticas, em um país de 85 milhões de habitantes onde a oposição busca unir forças para desafiar o longo reinado de Erdogan.
