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Enquanto o Paquistão luta contra os talibãs afegãos, os temores de uma grande guerra aumentam

Combates intensos explodiram entre o exército paquistanês e as forças do Talibã afegão ao longo da fronteira compartilhada no fim de semana, tornando-se o confronto mais mortal entre os dois vizinhos desde que o Talibã assumiu o poder em Cabul, em 2021. Essa escalada começou com ataques aéreos paquistaneses em território afegão no dia 9 de outubro de 2025, mirando esconderijos do Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP), grupo militante que opera contra o Paquistão. Autoridades paquistanesas e o regime talibã no Afeganistão afirmam ter causado perdas significativas ao lado oposto, com relatos de centenas de mortes e capturas de postos fronteiriços.​

De acordo com o Talibã, eles mataram 58 soldados paquistaneses e feriram outros 30 em operações noturnas na fronteira no domingo, 12 de outubro, além de alegar a captura de 25 postos militares paquistaneses. O exército do Paquistão relatou números bem menores para suas próprias baixas, com 23 tropas mortas, mas contra-atacou afirmando ter eliminado mais de 200 combatentes afegãos e capturado 19 postos talibãs, destruindo vários outros ao longo da Linha Durand, a fronteira disputada de 2.640 km. O Talibã admitiu apenas nove baixas em seu lado, incluindo 16 a 18 feridos, em um comunicado do porta-voz Zabihullah Mujahid no X (antigo Twitter). Essas alegações não puderam ser verificadas de forma independente, pois o acesso à região fronteiriça continua altamente restrito, com relatos de jornalistas e agências como a AFP destacando a dificuldade de confirmação em meio ao caos. Além disso, no dia 12 de outubro, fontes locais afegãs relataram um ataque de drone paquistanês nas províncias de Kandahar e Helmand, matando 19 combatentes talibãs, embora isso não tenha sido confirmado oficialmente pelo regime de Cabul.​

Os combates parecem ter diminuído até a noite de 12 de outubro, mas o primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif prometeu uma “forte retaliação”, comparando a situação ao conflito com a Índia em maio de 2025, enquanto o ministro do Interior, Mohsin Naqvi, enfatizou uma resposta “apropriada como a dada à Índia”. O chefe do Exército paquistanês, Asim Munir, visitou posições de fronteira para inspecionar as tropas, sinalizando a seriedade da ameaça. O ministro das Relações Exteriores afegão, Amir Khan Muttaqi, anunciou em uma conferência de imprensa em Nova Délhi que as forças afegãs pausaram operações “por enquanto”, mas alertou para respostas decisivas a futuras violações do espaço aéreo.​

Por que Paquistão e Talibã afegão estão lutando?

As tensões entre os dois países, que um dia foram aliados próximos durante a luta contra a ocupação soviética e americana no Afeganistão, aumentaram drasticamente após 2021, quando Islamabad exigiu que Cabul agisse contra o Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP), um grupo separatado, mas intimamente ligado ao Talibã afegão por laços ideológicos e étnicos. O TTP, fundado em 2007, busca impor uma versão radical do Islã, especialmente na província de Khyber Pakhtunkhwa e nas áreas tribais do noroeste do Paquistão, que fazem fronteira com o Afeganistão e abrigam populações pashtuns compartilhadas. O governo paquistanês acusa o TTP de operar livremente do território afegão, usando-o como base segura para planejar ataques, algo que o Talibã nega veementemente, insistindo que não abriga militantes anti-paqueses.​

Nos últimos anos, militantes do TTP intensificaram ataques contra as forças de segurança paquistanesas, com uma ressurgência notável após a retirada dos EUA do Afeganistão em 2021, que permitiu ao grupo reorganizar-se com estimados 6.000 a 6.500 combatentes, muitos armados com equipamentos da OTAN deixados para trás. Um relatório da ONU de 2023, atualizado em 2024, confirmou que o TTP recebe “apoio logístico e operacional substancial” das autoridades de fato em Cabul, incluindo treinamento e refúgio, o que catalisou o deterioro das relações bilaterais. Exemplos recentes incluem um ataque do TTP em 8 de outubro de 2025, em Kurram, onde uma emboscada a um comboio militar paquistanês matou 11 soldados, incluindo dois oficiais, usando bombas à beira da estrada e armas pesadas. No dia 10 de outubro, o TTP atacou uma escola de treinamento policial, matando 20 oficiais de segurança e 3 civis, em retaliação aos bombardeios paquistaneses.​​

Entre janeiro e 15 de setembro de 2025, mais de 500 pessoas morreram em ataques do TTP, incluindo 311 soldados e 73 policiais, segundo um porta-voz militar paquistanês citado pela AFP, com o grupo mirando não só forças de segurança, mas também interesses econômicos chineses sob a Iniciativa Cinturão e Rota, como o ataque em março de 2023 que matou cinco chineses. O Paquistão também culpa a Índia por apoiar o TTP e outros insurgentes, como o Exército de Libertação de Baluchistão, em uma tentativa de desestabilizar o país, alegações que Nova Délhi nega firmemente, contrapondo que o Paquistão apoia grupos militantes em Caxemira, administrada pela Índia, exacerbando rivalidades regionais. Em resposta, o Paquistão lançou operações como “Azm-e-Istehkam” em junho de 2024, focando em ameaças internas e transfronteiriças, mas com sucesso limitado devido aos santuários afegãos.​

Situação frágil na fronteira

A escalada recente foi desencadeada por bombardeios paquistaneses no dia 9 de outubro de 2025, em Cabul, Khost, Jalalabad e Paktika, visando o líder do TTP, Noor Wali Mehsud, um terrorista designado internacionalmente, que escapou e divulgou um áudio confirmando sua sobrevivência e prometendo retaliação. Explosões foram ouvidas em Cabul perto da Praça Abdul Haq, no Distrito 8, com testemunhas relatando aviões sobrevoando a área, levando a investigações afegãs que acusaram Islamabad de violar a soberania. Na semana anterior, o Talibã afegão já havia acusado o Paquistão de bombardear um mercado no leste do país, intensificando o ciclo de retaliações. O governo paquistanês não confirmou nem negou os ataques aéreos iniciais, mas reiterou seu direito de se defender contra o que descreve como uma onda crescente de militância transfronteiriça, incluindo violações de soberania afegã em operações anteriores em 2024.​

As forças talibãs afirmaram que lançaram ataques contra tropas paquistanesas na noite de 11 para 12 de outubro como “retaliação aos bombardeios realizados pelo exército paquistanês em Cabul e outras províncias”, com o Ministério da Defesa talibã declarando o fim da operação, mas rejeitando unilateralmente um cessar-fogo e continuando combates até a manhã do dia 12. Michael Kugelman, analista de Sul da Ásia baseado em Washington, explicou à DW que esses choques recentes são impulsionados pela “incapacidade de Islamabad de conter o terrorismo anti-Paquistão baseado no Afeganistão”, apesar de estratégias como negociações e operações militares limitadas dentro do Paquistão. Agora, operações antiterrorismo mais intensas contra alvos afegãos pelo Paquistão provocaram uma resposta talibã, levando à escalada que pode ter implicações de longo alcance para a região volátil, com presença pesada de grupos islamistas.​

Embora os combates pareçam ter parado por enquanto, a situação continua instável, com tensões profundas enraizadas em disputas históricas sobre a Linha Durand, traçada em 1893 e não reconhecida pelo Afeganistão. Os confrontos também paralisaram o comércio de fronteira, com o Paquistão fechando passagens cruciais como Torkham e Chaman, em Baluchistão, ao longo dos 2.600 quilômetros de fronteira, deixando dezenas de veículos carregados de mercadorias presos de ambos os lados e afetando economias locais dependentes do tráfego bilateral. Um representante da indústria paquistanesa relatou à Reuters que isso ameaça a estabilidade econômica, especialmente para comerciantes e refugiados que cruzam regularmente. Analistas da ACLED (Armed Conflict Location & Event Data Project) destacam que esses fechamentos exacerbam a instabilidade, transformando a fronteira em um “campo de batalha” para o TTP.​

O TTP vai intensificar ataques?

O TTP, com sua base principal no Afeganistão e presença forte no Paquistão, representa uma ameaça crescente, e especialistas alertam para um aumento de ataques de retaliação após esses choques. Omar Samad, ex-embaixador afegão no Canadá e fellow sênior não residente no Atlantic Council, alertou à DW que a hostilidade entre os dois lados “pode escalar para violência generalizada e ações militares além do que estamos vendo”, causando danos irreparáveis às relações bilaterais e afetando a segurança regional. As tensões entre o establishment militar paquistanês e o governo de fato afegão vêm crescendo há dois anos, em parte por erros, mal-entendidos e má gestão, incluindo demandas não atendidas do Talibã por repatriação de prisioneiros TTP e acusações de extorsão financeira.​

Kugelman acredita que uma consequência da crise pode ser um aumento de ataques de retaliação pelo TTP, possivelmente incentivados pelo Talibã afegão, que veem o grupo como um aliado ideológico apesar das negações oficiais. Ele observou que o Talibã afegão não é páreo para o exército paquistanês em um confronto direto, apesar de capazes de realizar operações em postos fronteiriços usando táticas de guerrilha. Relatórios da ONU alertam que o TTP pode se transformar em uma “guarda-chuva” para outros grupos terroristas, como a Al-Qaeda na Subcontinente Indiano (AQIS), escalando ameaças não só para o Paquistão, mas potencialmente para Índia, Mianmar e Bangladesh. Imtiaz Gul, especialista em segurança e diretor executivo do Centro de Pesquisa e Estudos de Segurança em Islamabad, concorda, afirmando à DW que “o Paquistão agora enfrentará uma ameaça crescente de militância do TTP mais do que nunca após os choques com o Afeganistão”.​

Gul enfatiza a necessidade de fortalecer as operações antiterrorismo e as capacidades de inteligência para combater essas ameaças, incluindo monitoramento de esconderijos transfronteiriços e cooperação internacional, pois o TTP tem mirado empresas militares paquistanesas e interesses estrangeiros. O Instituto de Pesquisa pela Paz de Frankfurt (PRIF) nota que o ressurgimento do TTP catalisa o deterioro Af-Paquistão, com incidentes como o bombardeio paquistanês em Paktika em dezembro de 2024, que matou 46 afegãos, incluindo civis, ilustrando o ciclo vicioso. Para as populações locais, já sofrendo com ataques militantes, isso ameaça uma nova era de volatilidade e instabilidade, com impactos humanitários graves.​

Hora de desescalar?

Apesar das relações turbulentas entre os governos, os vizinhos tentaram melhorar os laços no último ano, reconhecendo vulnerabilidades mútuas em meio a pressões econômicas e humanitárias. Em maio de 2025, o Paquistão anunciou que elevaria suas relações diplomáticas com o Talibã afegão e nomearia um embaixador em Cabul, um passo simbólico apesar de ainda não reconhecer formalmente o regime, como parte de esforços para estabilizar a fronteira. O ministro das Relações Exteriores paquistanês, Ishaq Dar, expressou preocupações com os choques em declarações recentes, enquanto o representante especial para o Afeganistão, Mohammad Sadiq, visitou Cabul para discutir questões bilaterais durante os bombardeios de outubro.​

Os dois países compartilham laços históricos, culturais e interpessoais próximos, com populações pashtuns transfronteiriças e uma herança comum de resistência a invasões estrangeiras. Milhões de afegãos que fugiram da guerra em seu país nos últimos 40 anos encontraram refúgio no Paquistão, com estimados 4 milhões vivendo lá até recentemente, contribuindo para a economia informal mas também gerando tensões. No entanto, em meio às tensões com o Talibã, o governo paquistanês iniciou em 2023 uma grande operação para repatriar esses afegãos, deportando mais de 800 mil até agora, incluindo famílias inteiras, o que Cabul vê como uma violação humanitária e fonte de atrito adicional, conforme relatórios da Human Rights Watch e dados oficiais paquistaneses.​

Samad enfatiza que ambos os lados devem realizar conversas construtivas para resolver os problemas, em vez de táticas beligerantes que só beneficiam extremistas. “Apesar da bravata e do orgulho excessivo, os dois países têm vulnerabilidades e forças que são desiguais e contraditórias”, disse ele, notando que os afegãos têm pouco a perder contra odds militares esmagadoras, mas o Paquistão enfrenta fragilidades internas como instabilidade econômica e divisões étnicas. “Agora é hora de estadismo, cautela e diálogo honesto”, concluiu Samad, alertando que “não há tempo para enganos, manipulações ou fanfarronices”, especialmente com o risco de envolvimento de potências como China e Índia. Observadores como os da Al Jazeera sugerem que, embora uma guerra total seja improvável, a persistência desses conflitos pode roer a estabilidade regional, exigindo mediação internacional urgente.

A informação é coletada da Al Jazeera e da BBC.