Hinton afirma que as gigantes tecnológicas precisam de cortes de emprego para lucrar com a IA
Geoffrey Hinton é um cientista informático premiado com o Nobel, frequentemente conhecido como o “pai da inteligência artificial”, e voltou a sublinhar as preocupações fundamentais sobre o impacto transformador da inteligência artificial no mercado laboral global. Numa entrevista ao programa “Wall Street Week” da Bloomberg Television em 1 de novembro de 2025, Hinton afirmou explicitamente que os gigantes da tecnologia estão a apostar na substituição de trabalhadores humanos por inteligência artificial, uma vez que isto oferece lucro económico. Esta declaração representa uma escalada importante relativamente aos impactos económicos e sociais desta tecnologia transformadora.
Investimento em larga escala e busca de lucro
Quatro principais empresas de supercálculo em inteligência artificial — Microsoft, Meta, Alphabet e Amazon — anunciaram aumentos significativos nas despesas de investimento, passando de 360 mil milhões de dólares este ano para 420 mil milhões de dólares no próximo exercício financeiro. Estes números impressionantes refletem um compromisso sem precedentes destas empresas com a infraestrutura de inteligência artificial. Além disso, a OpenAI anunciou um acordo revolucionário de infraestrutura no valor total de um biliião de dólares, que inclui parceiros principais do ecossistema de inteligência artificial, como NVIDIA, Broadcom e Oracle.
Quando questionado diretamente se um investimento tão massivo poderia manter a rentabilidade sem desemprego, Hinton respondeu com a sua franqueza característica: “Não acho que seja possível. Acho que, para ganhar dinheiro, é necessário substituir o trabalho humano.” Esta resposta evidencia a convicção profunda de Hinton de que a rentabilidade económica e a destruição de postos de trabalho estão essencialmente interligadas no atual modelo de negócio destes gigantes tecnológicos.
O sistema capitalista é o verdadeiro culpado
Nas suas declarações recentes e comentários públicos, Hinton atribui as potenciais consequências socioeconómicas ao sistema capitalista e não à tecnologia de inteligência artificial em si. “Isto vai levar a desemprego generalizado e a um enorme aumento de lucros. Isto vai tornar algumas pessoas muito ricas e a maioria das pessoas pobre. Isto não é culpa da inteligência artificial, é culpa do sistema capitalista,” afirmou numa entrevista ao Financial Times.
Esta distinção crítica — entre os meios tecnológicos e o quadro económico em que trabalha — é fundamental para compreender a posição diferenciada de Hinton. Ao contrário das tecnologias disruptivas do passado que frequentemente criaram e destruíram o mesmo número de postos de trabalho ao longo do tempo, Hinton expressou profunda desconfiança de que a inteligência artificial seguirá este padrão histórico de criação compensatória de postos de trabalho.
Impacto assimétrico em diferentes sectores de emprego
Hinton destacou particularmente que os postos de trabalho que envolvem tarefas rotineiras e repetitivas enfrentam a ameaça mais direta de substituição por inteligência artificial. No entanto, também identificou sectores que podem escapar a esta grande perturbação. Na sua perspetiva, o sector da saúde é uma exceção notável, devido às suas características económicas únicas: mesmo que a eficiência dos médicos aumentasse cinco vezes, a procura por serviços de saúde não diminuiria proporcionalmente.
Como Hinton explicou: “Se conseguir aumentar a eficiência dos médicos cinco vezes, então podemos todos receber cinco vezes mais serviços de saúde ao mesmo preço. A quantidade de saúde é praticamente ilimitada — os pacientes sempre querem mais saúde quando não há custo.”
Em contraste, profissões que lidam com trabalho primário e previsível — processamento de dados, transcrição, codificação simples, alguns cargos administrativos — constituem o núcleo do trabalho que a inteligência artificial pode substituir efetivamente. Posições de elevada qualificação que requerem conhecimentos especializados profundos, criatividade profunda ou interação humana complexa podem estar mais protegidas.
Evidências crescentes de compressão de oportunidades de entrada
Os dados empíricos atuais começam a confirmar as preocupações teóricas de Hinton. Há amplas evidências de que a inteligência artificial já está a reduzir oportunidades de emprego, particularmente em postos de entrada para recém-licenciados universitários. Uma pesquisa documentada mostrou que as posições de entrada diminuíram cerca de 30% desde o lançamento do ChatGPT e do uso generalizado de ferramentas de inteligência artificial generativa. Este encolhimento nas oportunidades de entrada cria um obstáculo importante para novos colaboradores que desejam construir carreiras.
Em paralelo, uma pesquisa do Federal Reserve de Nova Iorque revelou dados diferenciados sobre a situação atual: as empresas que usam ativamente inteligência artificial tendem a grandes despedimentos, mas preferem, em vez disso, requalificar os colaboradores existentes. Contudo, Hinton e especialistas da indústria esperam que esta abordagem conservadora seja temporária, com as despedições a deverem aumentar significativamente nos próximos meses e anos, à medida que as empresas avaliam completamente o significado lucrativo da inteligência artificial.
Crítica severa a soluções propostas
Hinton também criticou uma das soluções mais populares propostas pelos líderes tecnológicos para atenuar esta grande perturbação. Rejeitou explicitamente a ideia de rendimento básico universal (UBI), conforme proposto especificamente pelo CEO da OpenAI, Sam Altman, como resposta à perturbação do mercado laboral provocada pela inteligência artificial. De acordo com a perspetiva de Hinton, esta abordagem “não vai resolver a questão da dignidade humana” e não vai resolver a questão essencial que o trabalho representa — o significado intrínseco que as pessoas obtêm dele, muito além da simples compensação financeira.
Contexto mais amplo dos avisos de Hinton
Vale a pena notar que as preocupações de Hinton sobre a substituição de trabalhadores estão enraizadas num quadro de aviso mais amplo que expressou sobre riscos de inteligência artificial existencial. Quando deixou o Google em maio de 2023, afirmou explicitamente: “Deixei o Google para poder falar sobre os perigos da inteligência artificial sem me preocupar com potenciais impactos no Google.” Hinton acredita que o desenvolvimento rápido de inteligência artificial traz “riscos profundos para a sociedade e para a humanidade”, muito além de questões puramente de emprego. Especula que, uma vez que a tecnologia evolua para inteligência artificial geral superinteligente, existe uma probabilidade de 10 a 20% de que possa realmente tornar-se uma ameaça existencial real para a humanidade.
