Cabo Verde se torna a segunda menor nação a chegar à Copa do Mundo
Cabo Verde entrou para a história do futebol mundial ao se tornar a segunda nação com menor população a se classificar para a Copa do Mundo. Os Tubarões Azuis, apelido da seleção nacional, garantiram essa façanha com uma vitória convincente por 3 a 0 sobre Eswatini, em casa, no Estádio Nacional de Praia, assegurando o primeiro lugar no Grupo D das eliminatórias africanas e uma vaga direta nas finais de 2026, nos Estados Unidos, Canadá e México. Essa conquista veio à frente de potências continentais como Camarões, que terminaram a campanha com quatro pontos a menos e agora dependem de playoffs para tentar uma nona participação no torneio.
O jogo, disputado na noite de 13 de outubro de 2025, foi marcado por tensão inicial e explosão de alegria no segundo tempo. Com uma torcida de cerca de 15 mil pessoas lotando as arquibancadas, os cabo-verdianos transformaram o estádio em um caldeirão de emoções. A vitória não só coroou uma campanha impecável em casa – com quatro vitórias em cinco jogos e nenhum gol sofrido –, mas também representou o sonho coletivo de um arquipélago que, há duas décadas, mal figurava no mapa do futebol internacional. O presidente da FIFA, Gianni Infantino, enviou uma mensagem de vídeo parabenizando o país: “Que momento histórico. Parabéns a todos em Cabo Verde por chegarem à Copa do Mundo pela primeira vez. Sua bandeira vai tremular e seu hino será ouvido no maior Mundial de todos os tempos.”
Um Arquipélago Pequeno com Grandes Sonhos no Futebol
Cabo Verde é um arquipélago vulcânico composto por 10 ilhas principais no Oceano Atlântico, a cerca de 600 quilômetros da costa da África Ocidental. Com uma população estimada em pouco menos de 525 mil habitantes, segundo os dados mais recentes do Banco Mundial de 2023 – número que se mantém estável em 2025 –, o país é um dos menores do mundo em termos demográficos. Ganhou independência de Portugal em 1975, após séculos de colonização, e só se filiou à FIFA em 1982, o que limitou suas primeiras participações em competições globais. A seleção nacional, conhecida como Tubarões Azuis ou Crioulos, disputou seu primeiro jogo internacional em 1978, uma derrota por 1 a 0 para a Guiné, e desde então tem construído uma trajetória de superação.
O primeiro tentativa de classificação para a Copa do Mundo veio em 2002, no torneio sediado pelo Japão e Coreia do Sul, mas o time ainda estava em fase de formação. Nos últimos anos, no entanto, os Tubarões Azuis têm mostrado consistência na Copa Africana de Nações (Afcon). Eles estrearam em 2013, chegando às quartas de final em sua primeira participação – uma surpresa que chocou o continente. Repetiram o feito em 2023, eliminando favoritos como Gana nas oitavas de final e empatando com o Egito nas quartas, antes de cair para a África do Sul. Atualmente, ocupam o 70º lugar no ranking da FIFA, uma posição que reflete o crescimento constante desde o 182º posto há duas décadas. Apenas a Islândia, com cerca de 376 mil habitantes e presença na Copa de 2018 na Rússia, tem uma população menor entre as nações que já se classificaram para o Mundial.
Além do futebol, essa conquista impulsiona o setor turístico, que é o motor da economia cabo-verdiana. Em 2024, o país recebeu um pico de 390 mil turistas no quarto trimestre, graças a praias de areia branca, vulcões impressionantes e uma cultura crioula vibrante, misturando influências africanas, portuguesas e brasileiras. No primeiro trimestre de 2025, o número caiu para 325 mil devido a fatores sazonais, mas analistas preveem um boom com a exposição global da Copa do Mundo, similar ao que aconteceu com outras nações insulares como as Ilhas Cayman em eventos esportivos. O Banco Mundial destaca que o turismo representa mais de 25% do PIB de Cabo Verde, e eventos como esse podem atrair investimentos em infraestrutura esportiva e hotéis, beneficiando comunidades locais em ilhas como Santiago e Sal.
O Caminho Detalhado até a Classificação Histórica
A campanha das eliminatórias africanas para a Copa de 2026 começou em novembro de 2023, com Cabo Verde no Grupo D ao lado de Camarões, Líbia, Angola e Eswatini. Os Tubarões Azuis acumularam 23 pontos no total, invictos em casa e com uma defesa sólida que sofreu apenas três gols no grupo. O ponto de virada veio no mês passado, com uma vitória por 1 a 0 sobre Camarões em Praia – um resultado que ecoou como um terremoto no continente, considerando os oito Mundiais dos Leões Indomáveis. Essa liderança de dois pontos foi mantida até o fim, mesmo após um empate eletrizante por 3 a 3 contra a Líbia na semana anterior, em Trípoli. Lá, os cabo-verdianos viraram o jogo após estar dois gols atrás, mas um gol nos acréscimos foi invalidado por uma decisão polêmica de impedimento, decidida pelo VAR.
No confronto decisivo contra Eswatini, que terminou a campanha sem vitórias e na lanterna do grupo, o primeiro tempo foi de domínio nervoso. Dailon Livramento, o artilheiro das eliminatórias com três gols, desperdiçou uma chance clara ao chutar para fora, enquanto Jamiro Monteiro teve um chute defendido pelo goleiro Khanyakwezwe Shabalala. A torcida, incluindo o presidente José Maria Neves, que assistiu ao jogo pessoalmente, conteve a respiração. Mas o segundo tempo mudou o rumo: aos 48 minutos, Livramento abriu o placar com um toque simples dentro da pequena área, após a defesa adversária falhar na desmarcação. Seis minutos depois, aos 54, Willy Semedo ampliou com um voleio preciso sobre uma assistência de Diney, incendiando as arquibancadas. O veterano Stopira, de 37 anos e com mais de 80 jogos pela seleção desde 2008, entrou no final e marcou o terceiro nos acréscimos, selando a glória. A comemoração foi épica, com jogadores invadindo a torcida e bandeiras azuis tremulando por toda a noite.
Com essa vitória, Cabo Verde se tornou a sexta nação africana classificada diretamente para 2026, juntando-se a Marrocos, Tunísia, Egito, Argélia e Gana. O torneio expandido para 48 times garante nove vagas automáticas à África, contra cinco no Catar 2022, o que democratizou as chances para times menores. Três vagas adicionais virão dos playoffs intercontinentais, e a fase de grupos africanos termina nesta terça-feira, 14 de outubro de 2025, definindo os últimos contendores. O sorteio do Mundial acontece em 4 de dezembro em Washington DC, onde os Tubarões Azuis podem sonhar com duelos contra gigantes como Brasil ou Alemanha.
Por Que Essa Conquista Muda o Jogo para a África
Roberto “Pico” Lopes, zagueiro do Shamrock Rovers na Irlanda e um dos pilares da defesa, comentou à BBC antes do jogo na Líbia sobre o impacto das novas regras. “Historicamente, qualificar-se para a Copa pela África era um pesadelo, pois só o primeiro do grupo ia direto, e os grupos eram mortais”, explicou ele. “Agora, com nove vagas garantidas, a pressão para liderar é motivadora, mas acessível. Isso beneficia nações como a nossa, que investem em desenvolvimento apesar dos recursos limitados.” Lopes, convocado pela primeira vez via LinkedIn em 2021, simboliza a busca incansável por talentos na diáspora.
Camarões, por outro lado, tropeçou em jogos fora de casa: empates contra Líbia, Angola e Eswatini custaram caro em uma campanha que durou quase dois anos. No último jogo, em 13 de outubro, eles empataram sem gols com Angola em Yaoundé, apesar de chances claras – Maestro e Zito Luvumbo acertaram a trave duas vezes. Com oito Copas no histórico, os Leões Indomáveis devem ir aos playoffs africanos e interconfederativos em novembro, enfrentando times como Nigéria ou Senegal por uma chance de ida ao Mundial. Essa eliminação direta destaca como o formato expandido permite surpresas, mas pune inconsistências de favoritos.
A Força da Diáspora e o Futebol Além das Fronteiras
A liga doméstica de Cabo Verde é modesta, com apenas 12 times no campeonato principal, o que torna a seleção dependente de jogadores formados no exterior e descendentes de cabo-verdianos. A diáspora é vasta: estima-se que mais cabo-verdianos vivam fora do país do que dentro, espalhados por Portugal, Estados Unidos, França e Holanda, em busca de melhores oportunidades econômicas. Muitos emigram jovens, como o pai de Lopes, que deixou a ilha de São Nicolau aos 16 anos. “A migração em massa é uma realidade, mas o futebol nos une globalmente”, disse Lopes em um podcast da BBC. Quatro dos jogadores mais convocados – como o goleiro Fábio Moreira, Vozinha, Stopira e Garry Rodrigues – estão no atual elenco, trazendo experiência de ligas europeias.
O artilheiro Dailon Livramento, nascido na Holanda e com dupla nacionalidade, joga no Casa Pia, time modesto da Primeira Liga portuguesa (14º lugar em 2025), mas é peça-chave com sua velocidade e faro de gol. Nenhum titular atua nos cinco grandes campeonatos europeus, o que sublinha a estratégia de talento acessível. Fora do futebol, o esporte eleva o país: na Olimpíada de Paris 2024, o boxeador David de Pina conquistou o primeiro medalha olímpica de Cabo Verde, um bronze nos moscas, inspirando a nova geração. Esses feitos mostram como o esporte transcende limitações econômicas, com o PIB per capita de cerca de US$ 4.500 e dependência de remessas da diáspora, que representam 10% do PIB.
Estabilidade no Comando e o Futuro Brilhante
Desde janeiro de 2020, o técnico Bubista, de 55 anos e ex-jogador da seleção nos anos 1990, lidera os Tubarões Azuis com estabilidade rara em seleções africanas. Ele construiu um time compacto: defesa mean (média de 0,6 gol sofrido por jogo nas eliminatórias), meio-campo técnico com jogadores como Jamiro Monteiro (do Estoril, Portugal) e atacantes velozes que surpreenderam na Afcon 2023. Apesar de não se classificarem para a Afcon 2024 no Marrocos – terminando últimos em um grupo com Egito, Botsuana e Mauritânia –, a federação manteve Bubista, apostando em continuidade. Seu estilo tático, focado em contra-ataques e solidez defensiva, rendeu invencibilidade em casa e vitórias sobre favoritos.
Pedro Leitão Brito, assistente de Bubista, também contribui para o planejamento de longo prazo, com ênfase em academias de base nas ilhas. Agora, com a qualificação, os cabo-verdianos planejam o Mundial com otimismo. O hino nacional ecoará pela primeira vez em um estádio global, e o turismo esportivo pode dobrar as chegadas de visitantes em 2026. Enquanto a África celebra suas nove vagas, Cabo Verde prova que, com união e persistência, até os menores podem rugir como tubarões no oceano do futebol mundial. A fase final das eliminatórias africanas conclui hoje, prometendo mais histórias inspiradoras.
A informação é coletada da BBC e do Goal.com.
