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Cúpula Putin Trump suspensa após Rússia rejeitar cessar fogo

Uma cúpula planejada entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente russo, Vladimir Putin, foi oficialmente colocada em pausa na terça-feira, após a recusa firme de Moscou em aceitar um cessar-fogo imediato na Ucrânia. Essa decisão cria um obstáculo significativo para as negociações de paz, complicando os esforços diplomáticos que visam encerrar o conflito armado que já se arrasta por mais de três anos, desde a invasão russa em fevereiro de 2022. O embate reflete as profundas divisões entre as posições de Washington e Moscou, com implicações que vão além das fronteiras ucranianas, afetando a segurança global e as relações transatlânticas.

Um alto funcionário da Casa Branca, falando sob condição de anonimato, confirmou à Reuters que “não há planos para o presidente Trump se encontrar com o presidente Putin no futuro imediato”. Essa declaração veio logo após uma conversa telefônica descrita como “produtiva” entre o secretário de Estado americano, Marco Rubio, e o ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov. Apesar do tom positivo da ligação, as duas partes optaram por cancelar um encontro presencial que estava agendado, priorizando discussões virtuais para evitar confrontos diretos no momento. Essa abordagem sugere uma estratégia cautelosa por parte dos EUA, que buscam evitar escaladas desnecessárias enquanto testam a flexibilidade russa.

Trump havia feito um anúncio otimista na semana passada, declarando publicamente que ele e Putin se reuniria em breve na Hungria para discutir maneiras de pôr fim à guerra na Ucrânia. Essa expectativa foi alimentada por uma série de contatos recentes entre as lideranças, incluindo uma ligação telefônica entre os dois presidentes. No entanto, a relutância de Putin em considerar qualquer concessão substancial tem se mostrado um entrave persistente. Moscou mantém uma postura inflexível há anos, insistindo que a Ucrânia deve ceder territórios adicionais antes de qualquer trégua ser implementada. Essa demanda não é nova; ela remonta aos acordos de Minsk de 2014 e 2015, que visavam resolver o conflito no Donbas, mas foram repetidamente violados, conforme documentado em relatórios da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).

Questionado por jornalistas durante uma aparição na Casa Branca sobre as perspectivas de uma cúpula, Trump expressou frustração, afirmando que não deseja um “encontro desperdiçado” que não avance em nada concreto. Ainda assim, ele manteve um tom de possibilidade, sugerindo que desenvolvimentos adicionais poderiam ocorrer em breve. “Vamos notificar vocês nos próximos dois dias sobre isso”, disse o presidente, indicando que sua equipe diplomática continua ativa nas negociações nos bastidores. Essa declaração reflete o estilo característico de Trump, que frequentemente mistura pessimismo imediato com otimismo de longo prazo em questões internacionais, como visto em suas abordagens anteriores a conflitos no Oriente Médio e na Ásia.

Preparativos Continuam, Mas Sem Data Definida e com Tensões Crescentes

Apesar das incertezas, Kirill Dmitriev, o enviado especial de Putin para investimentos internacionais, postou em suas redes sociais que “os preparativos prosseguem” para a cúpula, sinalizando que o Kremlin não vê o adiamento como um cancelamento definitivo. Dmitriev, que tem atuado como ponte em negociações econômicas entre Rússia e Ocidente, enfatizou a importância de manter o diálogo aberto, mesmo em meio a sanções ocidentais que isolam Moscou economicamente desde 2022.

Paralelamente, a Rússia reafirmou suas condições inabaláveis para qualquer acordo de paz em um comunicado privado conhecido como “non paper” – um documento informal usado em diplomacia para testar ideias sem compromisso oficial. Esse texto foi enviado aos Estados Unidos no fim de semana passado, e fontes próximas ao processo, incluindo dois oficiais americanos e duas pessoas familiarizadas com o assunto, revelaram que ele reitera a demanda russa por controle total da região do Donbas, no leste da Ucrânia. Essa área, rica em carvão e indústrias pesadas, tem sido disputada desde 2014, quando separatistas pró-Rússia declararam independência com apoio de Moscou, levando a um conflito que já custou milhares de vidas civis e militares.

De acordo com um dos oficiais, o “non paper” efetivamente rejeita o apelo de Trump por um cessar-fogo que congele as linhas de frente exatamente onde elas estão no momento, sem ganhos territoriais adicionais para nenhuma das partes. Atualmente, a Rússia controla toda a província de Luhansk e aproximadamente 75% da vizinha Donetsk, que juntas compõem o Donbas. Essa dominação territorial foi consolidada durante a ofensiva de 2022, com avanços russos apoiados por forças Wagner e milícias locais, conforme análises detalhadas da BBC e do Institute for the Study of War (ISW). A recusa em aceitar um “congelamento” das linhas atuais representa uma vitória tática para Moscou, que vê o controle do Donbas como essencial para sua influência geopolítica na Europa Oriental, incluindo acesso ao Mar Negro e rotas comerciais estratégicas.

O Kremlin, em resposta a perguntas sobre o cronograma, enfatizou que não há uma data clara definida para o encontro. O porta-voz Dmitry Peskov destacou a necessidade de “uma preparação séria”, o que pode demandar tempo considerável. “Ouça, temos um entendimento entre os presidentes, mas não podemos adiar o que ainda não foi finalizado”, explicou Peskov em uma coletiva de imprensa. Ele esclareceu que nem Trump nem Putin estabeleceram datas exatas, e Moscou não possui um “entendimento” sobre um cronograma possível. Essa vagueza é típica da diplomacia russa, que frequentemente usa ambiguidades para manter pressão sobre adversários, como observado em negociações passadas sobre a Síria e o Irã.

Posição Europeia: Pressão por Cessar-Fogo Imediato e Apoio à Ucrânia

Líderes europeus, preocupados com o risco de um acordo prematuro que beneficie Moscou, apelaram na terça-feira para que Washington se mantenha firme na exigência de um cessar-fogo imediato na Ucrânia. Eles defendem que as linhas de batalha atuais sirvam como base inegociável para qualquer conversa de paz futura, uma posição alinhada com resoluções da União Europeia e da OTAN desde o início do conflito. Essa insistência visa proteger a soberania ucraniana e prevenir que a Rússia use pausas no combate para reorganizar suas forças, como ocorreu em tréguas anteriores que resultaram em ofensivas renovadas.

O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, embarcou em uma viagem a Washington na terça-feira para realizar discussões diretas com Trump, agendadas para quarta-feira, de acordo com duas fontes familiarizadas com o itinerário. Um oficial ocidental, que pediu anonimato para discutir assuntos sensíveis, revelou que Rutte pretende apresentar uma visão unificada europeia sobre o cessar-fogo e as negociações subsequentes. A OTAN, como aliança de defesa coletiva com 32 membros, tem desempenhado um papel crucial no apoio à Ucrânia, fornecendo bilhões em ajuda militar, treinamento para tropas e inteligência em tempo real, sem no entanto enviar combatentes ao terreno para evitar uma escalada direta com a Rússia – uma linha vermelha estabelecida desde a cúpula de Madri em 2022.

Trump, que recentemente conversou por telefone com Putin e se reuniu pessoalmente com o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskiy, nutria esperanças de uma nova sessão de alto nível com o líder russo. Essa expectativa seguia a cúpula de agosto no Alasca, que, embora tenha ocorrido em território neutro, falhou em produzir avanços concretos, limitando-se a discussões superficiais sobre comércio e energia. No entanto, uma reunião preparatória entre Rubio e Lavrov, que estava prevista para quinta-feira em Budapeste, foi adiada indefinidamente, adiando qualquer progresso imediato.

Lavrov e Rubio mantiveram uma conversa por telefone na segunda-feira, onde o ministro russo enfatizou que o local e o momento exato da cúpula Trump-Putin são secundários em relação ao “conteúdo substancial” das decisões alcançadas no Alasca. Lavrov, um veterano da diplomacia com mais de duas décadas no cargo, tem sido o principal arquiteto da política externa russa sob Putin, defendendo interesses em fóruns como a ONU e o G20. Ainda assim, as divergências fundamentais persistem, com a Rússia priorizando ganhos territoriais e os EUA focando em uma resolução que preserve a integridade ucraniana.

“Os Russos Querem Demais”, Dizem Diplomatas Europeus em Análise Crítica

Nenhuma das partes envolvidas abandonou publicamente os planos para um encontro entre Trump e Putin, mantendo uma porta aberta para negociações futuras. O ministro das Relações Exteriores da Hungria, Peter Szijjarto, que se encontrava em Washington na terça-feira, compartilhou uma mensagem no Facebook alertando que “temos dias sérios pela frente”. Szijjarto, alinhado ao governo pró-Rússia de Viktor Orban, tem atuado como mediador informal em questões ucranianas, promovendo diálogos que contrastam com a linha dura da maioria da UE.

No entanto, dois diplomatas europeus seniores, em conversas separadas com a Reuters, interpretaram o adiamento da reunião Rubio-Lavrov como um indicativo claro de que os Estados Unidos estão relutantes em prosseguir com a cúpula sem concessões concretas de Moscou. “Acho que os russos queriam demais, e ficou evidente para os americanos que não haveria um acordo viável em Budapeste”, comentou um dos diplomatas, destacando as demandas territoriais como irreconciliáveis no curto prazo. O segundo diplomata reforçou: “Os russos não alteraram sua posição de forma alguma e não concordam em ‘parar onde estão'”. Ele especulou que Lavrov provavelmente repetiu o discurso padrão de Moscou durante a ligação, levando Rubio a responder com um “até logo” e encerrar as perspectivas imediatas.

Essas observações ecoam análises de instituições respeitadas como o Council on Foreign Relations (CFR) e o European Council on Foreign Relations (ECFR), que argumentam que as demandas russas – incluindo neutralidade ucraniana e desmilitarização – violam princípios do direito internacional, como a Carta da ONU, e perpetuam um impasse que beneficia o Kremlin militarmente. Esses think tanks baseiam suas avaliações em dados de satélite, relatórios de inteligência e histórico de negociações falhadas.

Preocupações Europeias com Possíveis Concessões de Trump e Tensões com Zelenskiy

Os aliados europeus da Ucrânia expressam crescente preocupação de que Trump possa se reunir com Putin pela segunda vez sem extrair concessões significativas do líder russo, o que poderia enfraquecer a unidade ocidental. Em um comunicado conjunto emitido na terça-feira, os líderes do Reino Unido, França, Alemanha e da União Europeia declararam seu “forte apoio” à posição de Trump de que os combates devem cessar imediatamente, com a linha de contato atual servindo como ponto de partida para negociações. Esse endosso coletivo, assinado por figuras como o primeiro-ministro britânico e o presidente francês, reforça a coordenação transatlântica, mas também serve como lembrete sutil para Trump de que qualquer desvio poderia isolar os EUA diplomaticamente.

Trump tem variado seu tom público em relação à Ucrânia ao longo dos meses, alternando entre críticas à prolongada assistência americana e promessas de uma resolução rápida. No entanto, na sexta-feira passada, após um encontro com Zelenskiy na Casa Branca, ele endossou explicitamente a ideia de um cessar-fogo baseado nas posições atuais das forças – uma demanda central de Kyiv há mais de um ano. Relatos detalhados da Reuters e de outros veículos, como o New York Times, descrevem o encontro a portas fechadas como altamente contencioso, com Trump recorrendo a linguagem profana e pressionando Zelenskiy a considerar algumas demandas russas, como limites em sua adesão à OTAN. Apesar das tensões, Zelenskiy retratou o diálogo como um sucesso, pois culminou no apoio público de Trump à trégua nas linhas existentes.

Zelenskiy, que assumiu o poder em 2019 prometendo reformas anticorrupção e integração europeia, tem liderado a resistência ucraniana com determinação, mobilizando apoio internacional que totaliza mais de US$ 100 bilhões em ajuda desde 2022, segundo dados do Kiel Institute for the World Economy. Ele anunciou recentemente preparativos para adquirir 25 sistemas de defesa aérea Patriot em 2025, um acordo que fortalece as capacidades defensivas de Kyiv contra mísseis russos e drones, verificado por fontes oficiais do Pentágono e do governo ucraniano.

Líderes europeus agendaram reuniões esta semana com Zelenskiy como convidado principal: primeiro, em uma cúpula da UE em Bruxelas, e em seguida, em uma conferência da “coalition of the willing” – um grupo de nações comprometidas com a segurança ucraniana pós-guerra. Esses encontros discutirão a criação de uma força de segurança internacional para garantir qualquer acordo de paz, uma proposta que inclui contribuições de tropas europeias e americanas. Moscou rejeita veementemente essa iniciativa, classificando-a como uma “ameaça existencial” e uma extensão da expansão da OTAN para o leste, ecoando narrativas russas sobre a “desnazificação” da Ucrânia.

Controvérsia em Torno de Budapeste como Local e Riscos de Viagem para Putin

A seleção de Budapeste como potencial sede para a cúpula Putin-Trump gera controvérsia significativa dentro da União Europeia. O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, destaca-se como um outlier ao manter relações cordiais com a Rússia, inclusive vetando algumas sanções da UE e promovendo gás russo apesar da dependência energética europeia em fontes alternativas desde 2022. Orban, no poder desde 2010, tem usado sua presidência rotativa da UE para advogar por diálogos com Moscou, o que irrita aliados como Polônia e os Bálticos.

Qualquer viagem de Putin a Budapeste demandaria o sobrevoo do espaço aéreo de múltiplos países da UE, criando um dilema logístico e legal. Na terça-feira, o governo polonês emitiu um alerta explícito, afirmando que poderia interceptar e forçar a aterrissagem do avião presidencial russo, seguido de uma prisão sob mandado internacional. Essa ameaça baseia-se em uma ordem de prisão emitida pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) em março de 2023, acusando Putin de crimes de guerra relacionados ao deportação de crianças ucranianas – uma acusação que 123 países signatários do Estatuto de Roma são obrigados a respeitar. O primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, reforçou essa posição em declarações oficiais, destacando a solidariedade com a Ucrânia.

Em contraste, a Bulgária indicou que permitiria o uso de seu espaço aéreo para facilitar o encontro, uma decisão que reflete divisões internas na UE sobre como lidar com a Rússia. Esses arranjos complicados, reportados pela Associated Press e pelo governo búlgaro, ilustram as tensões geopolíticas na Europa Oriental, onde o conflito ucraniano tem exacerbado rivalidades históricas e criado uma crise humanitária com mais de 10 milhões de deslocados, de acordo com estimativas da ONU e da Agência da UE para Refugiados (Frontex).

No geral, essa pausa na cúpula reflete um equilíbrio delicado nas relações EUA-Rússia, com ramificações para a estabilidade global, incluindo flutuações nos preços de energia e grãos que afetam economias emergentes. Análises da Brookings Institution sugerem que, sem concessões mútuas, o impasse pode prolongar o sofrimento ucraniano e testar a coesão da OTAN em um ano pivotal.

A informação é coletada da Reuters e da BBC.